terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Que 2014 tenha o que realmente for importante!

Apesar de ser o último dia do ano, hoje coube-me levar a família do meu irmão (ele, a minha cunhada e os dois filhos - a princesa cor-de-rosa de 9 anos e o monstrinho ternuro-frenético de 6) à estação dos autocarros. No Natal a família junta-se sempre em casa dos avós (dos miúdos) mas, à alegria dos reencontros contrapõe-se sempre a tristeza dos regressos às casas de cada um. Depois do meu irmão e família saírem, também eu e a Maria sairemos, e, depois de nós, as minhas irmãs farão o mesmo, deixando a casa novamente livre para os meus pais fazerem as loucuras que quiserem e que nós não queremos nem imaginar.
Os miúdos, que por viverem a uns milhares de quilómetros de distância já vão estando habituados a estas circunstâncias da vida, são os que melhor sabem lidar com elas. A tristeza só tem permissão de se sentir mesmo na hora da despedida. Até lá, é aproveitar, que o tempo é curto e é preciso abusar da paciência: eles da dos tios e dos avós e os tios e os avós da deles, que o reencontro só é possível no Verão.
Na sala de espera da estação dos autocarros, ao ver passar um velhote de barbas brancas e compridas, o meu sobrinho ficou de queixo caído. Percebi logo que o miúdo tinha reconhecido o Pai Natal mas, o que faria ali o homem, ainda por cima de roupa normal e sem as renas?
Por isso, apressei-me a tirar-lhe as dúvidas: "É o Pai Natal, mas agora que acabou o trabalho vai passear, e deu férias aos empregados dele. Ah, e vem sem a roupa normal para ninguém o reconhecer!"
Meio aparvalhado, o miúdo olhou para o velhote e voltou a olhar para mim com ar de dúvida. Disse-lhe "É é!" e o miúdo, matutando naquele meu segundo argumento, voltou a olhar para o velhote. Demorou uns instantes e foi então que, de sorriso rasgado, se virou para mim e me disse: "Tio tio, tenho um segredo para ti! Olha que a mamã até tem o número de telefone dele!"
A princesa cor-de-rosa partiu-se a rir, pelo menos até ao pequeno monstrinho lhe roubar metade do croissant e todo a estação ficou a saber. E num instante, o maldito autocarro apareceu. Aí foi a altura de, por coincidência, lhes entrar "uma coisita" para os olhos, que se encheram instantaneamente.
"Tio, dizes-nos adeus do lado de fora do autocarro?"
Digo, pois. Digo adeus e até para o ano, que as saudades já começaram a apertar.

Um bom ano a todos, recheado daquilo que é mais importante!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

30 dias de solidão

Este último mês que passou foi especialmente complicado para mim. Tive em mãos um trabalho gigantesco, que me obrigou a estar 55 minutos por hora, 14 horas por dia, 7 dias por semana, 4 semanas por mês em frente ao computador. A tal ponto que cheguei a ponderar ir à farmácia comprar fraldas para rentabilizar mais o tempo - parecendo que não, 6 idas por dia à casa de banho ainda roubam 28 minutos ao trabalho (demoro 7 minutos em assuntos demorados, 3 em assuntos rápidos). E até já tinha a estratégia preparada - só tinha que pedir fraldas à farmacêutica e dizer que eram para a minha avó. Mas depois de ponderar bem as coisas, acabei por não ir. O mais certo era a mulher perguntar-me o tamanho das fraldas e eu descair-me e olhar para a etiqueta das minhas calças antes de responder: "Das fraldas não sei, mas as calças são tamanho 40..."
O trabalho consistiu em ilustrar e paginar um livro de dicas e truques para o dia-a-dia em casa. Fiquei a saber coisas tão interessantes como o facto de que, acender um fósforo na casa de banho depois de uma evacuação radioactiva (if you know what I mean), faz o cheiro da descarga desaparecer por completo. Ou que segurar o prego junto à parede com uma mola da roupa antes de martelar diminui as probabilidades de dar uma martelada na mão.
Ainda assim, e tendo em conta a minha experiência de longos períodos em casa, acho que ficaram algumas dicas e truques essenciais fora do livro. Por exemplo, se fosse eu o escritor, começaria logo o livro com:
"Se estiver constipado e se assoar muitas vezes em casa, assoe-se e deixe o lenço ranhoso no sítio onde se assoou. No dia seguinte, ao passar novamente por esse sítio, vai ver que o lenço está seco e já o pode usar novamente. Vai deixar de ter que se preocupar em andar com lenços atrás."
Não não, já sei. Se fosse eu, começava era o livro com:
"Se for passar o fim de semana a casa de familiares, deixe a loiça toda lavada. A menos que esteja suja de queijo. Aí vai ser bom voltar a casa, com um queijinho gourmet cheio de bolor a perfumar a casa à sua espera."
Não, esta também não. Tinha que ser uma mesmo útil. Ah, já sei:
"Se estiver a ver aqueles programas de debates de futebol com gajos fanáticos e doentes, não ponha a televisão mais alto para perceber o que é que eles estão a dizer. Não vai perceber à mesma e a vizinha do lado vai começar a dar palmadas na parede por causa do barulho e, quando lhe for pedir desculpa, ela ainda lhe vai responder que aquela hora não é a mais indicada para fazer festas com os amigos em casa."
Caramba, mas porque é que ninguém me pede conselhos...

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Tenho um arbusto a nascer debaixo dos azulejos (ou então a casa está a ruir, prontos)


Ontem à noite, estava eu com a Maria a arrumar a loiça na cozinha depois de jantar, quando começamos a ouvir o chão a ranger. Primeiro devagarinho, depois mais alto e mais e mais.
Olhámos um para o outro aparvalhados. Aquilo não era normal. Se a laje fosse de madeira, seria normal que rangesse (ui, as vezes que me custou a adormecer em casa da minha avó porque o chão não se calava e não havia quem me tirasse da ideia que era o homem do saco que lá vinha - e não estou a falar do Pai Natal...), mas aqui não era (supostamente) esse o caso.
Procurámos com os olhos pelo sítio da laje de onde vinham os ruídos mas não precisámos de nos esforçar muito - os azulejos começavam a soltar-se do chão, formando um alto mesmo no meio da cozinha. Aquilo mais parecia que estava a crescer um arbusto mutante debaixo dos azulejos. Uma pessoa não limpa o chão como deve ser e depois é o que dá.
A Maria, consciente de que tinha chegado o dia do juízo final, saltou por cima dos azulejos saltitantes em direcção à porta da saída e gritou-me para fazer o mesmo. Parecia uma cena daqueles filmes em que uma das personagens salta por cima de um precipício e grita à outra para fazer o mesmo, só que a outra está tão aparvalhada que não tem reacção. Ok, talvez não tenha ajudado a acalmar os ânimos eu ter dito "Esta merda está toda a ruir!...". Agora que penso nisso, foram 30 segundos mesmo engraçados.
Quando os azulejos, finalmente, sossegaram, fui ao apartamento de baixo ver se do tecto dos meus vizinhos se teria soltado alguma pedra. Mal me abriram a porta, percebi logo que não - depois de ter deixado sair a fumaça toda, vi que que por lá havia muita pedra, mas nenhuma que tivesse caído do tecto.
"Estávamos a fumar, ouvimos uns barulhos vindos do tecto e pensámos - devem ter deixado cair algum electrodoméstico, ah ah ah!" disse-me a minha vizinha, abanando a mão à frente da cara para me conseguir ver através do nevoeiro e rindo à parva do assunto como se o facto de os azulejos da minha cozinha terem vida própria fosse engraçado.
Voltei para casa convencido que, fosse lá o que fosse, o apartamento não ia desabar e que, no dia seguinte, haveria tempo de chatear o senhorio. A Maria é que não se deu por convencida e passou a noite a perguntar-me se estaríamos seguros. Ao fim da 57ª vez que lhe respondi que sim, desistiu e foi para a net à procura de uma razão para os azulejos ganharem vida. Ao que parece, de acordo com a net, aquilo aconteceu por causa do calor intenso, da humidade e da casa não ter sido arejada há meses. Por acaso, ontem foi dos dias mais quentes que tenho memória... Ainda bem que temos sempre a net para nos ajudar.
Mesmo assim, continuo a achar que foi por ter nascido um arbusto mutante debaixo dos azulejos. A carne hoje em dia vem cheia de hormonas, não sei se as pessoas sabem disso. E quando se cozinha, as hormonas passam para o ar e acabam em cima dos azulejos. Depois juntam-se a pedaços de legumes e dá nisto. Parece-me mais credível. Foi isso, de certeza.

Ah, é verdade: o senhorio já cá veio. Fez aquele ar de frete que só os senhorios sabem fazer e disse-me: "Vou ver quando é que posso mandar aqui o homem para tratar disso." E nem tentou por-me as culpas daquilo em cima. Foi uma sorte não se ter lembrado dos arbustos mutantes... Ufas.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O meu Capuchinho Vermelho

Aqui há uns meses, fui à apresentação de um projecto de uns tipos cheios de ideias. Daqueles que falam sem parar e acreditam tanto nas ideias que têm que conseguem contagiar quem os ouve. Ao princípio ainda achei que fossem só mais uns Miguéis Gonçalves desta vida mas, como nunca me mandaram bater punho e ainda diziam que os ganhos eram partilhados por todos os intervenientes no projecto, comecei a prestar atenção ao que diziam.
No fundo, a ideia era bastante simples: eles sabiam fazer apps para tablets e smartphones e, por entre as linhas de programação que devem debitar todos os dias, lembraram-se que era capaz de ser giro vender histórias infantis, daquelas que toda a gente conhece menos os putos. Deram o nome de Classic Tales ao projecto e chamaram a malta dos bonecos para dar corpo à ideia.
Acabei por ficar bastante entusiasmado, ainda para mais quando pude escolher o Capuchinho Vermelho para ilustrar. O mais difícil foi arranjar tempo para fazer o trabalho. Isso e escolher um final para a minha versão da história. Descobri milhares de versões diferentes, cada uma mais hardcore que a outra.
Depois de adiar até ao limite do prazo (sou um português convicto), não tive outra hipótese senão fazer as ilustrações nas férias de Verão - duas semanas a levantar-me às 5h30 da manhã para desenhar para depois estar livre para ir para a praia a partir das 11h, quando a Maria se levantava. Tirando o facto de não conseguir acompanhar o que ela dizia a partir das 23h 22h 21h 20h, acho que até correram bem.
Agora, ao fim de uns meses, a minha história e outras cinco de outros tantos talentosos ilustradores estão à venda na appstore, desde ontem. Já há mais um grupo de histórias a entrar num futuro próximo, o que augura um bom futuro para este projecto. Oxalá assim seja. A malta bem que agradece.
Só espero ganhar o suficiente para as próximas férias de Verão. É que posso ter que voltar a trabalhar nessa altura e vou precisar de um bom argumento.

PS - pus um vidro estalado na imagem para o meu sobrinho ver como a história vai aparecer no iPad do pai dele. Ele ainda é pequenito e podia estranhar ver aqui um desenho sem rachas e depois aparecer diferente no iPad que ele pisou e rachou, levando o pai às lágrimas de emoção... Pois, isso.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O novo Código do Animal de Companhia


Desde que acolhemos um pequeno monstro devorador de seres humanos - como carinhosamente gostamos de o ver - cá em casa que olho para os animais domésticos com outros olhos.
Em casa dos meus pais sempre tivemos animais com fartura, mas estando eles no quintal, a afeição que sentia por eles era muito menor do que tenho por esta bola de pêlo cujo único interesse na vida é arrancar-nos os olhos, espetando neles uma garra de cada vez. Lá, a interacção não ia muito além de algumas festas e de fita-cola nas patas. Aqui é diferente. Especialmente porque aqui, quem manda é o animal. Quem, como eu, viu o filme do Rei Leão sabe que o animal que se empoleira no ponto mais alto da selva é o que manda nos outros.
Por isso fiquei curioso com o novo regime jurídico sobre os animais de companhia. Que diabo, por cá não há só a crise. Tinha esperança que os direitos dos animais viessem reforçados, mas parece-me que se perdeu uma boa oportunidade. Nada de novo, por estas bandas.
Limita-se o número de animais por casa e apartamento, como se todos os apartamentos fossem iguais e como se todos os animais fossem iguais. (E como se todos os vizinhos fossem iguais.) Mas deixam-se de fora os criadores de animais, porque, claro, neste caso a economia sobrepõe-se ao incómodo que os bichos possam fazer. Quando se tenta passar aquilo que é do bom senso para lei, geralmente dá asneira. Em relação à eutanásia para os bichos, parece-me uma boa medida para aqueles casos em que a doença é terminal e gera um sofrimento atroz ao animal. Mas mesmo aqui, pelo que parece daquilo que li aqui, vai ser possível praticar eutanásia em animais doentes (cuja doença possa ser transmitida às pessoas), mesmo que a sua doença seja curável. Ou seja, se o animal estiver doente, o dono leva-o ao veterinário. E depois escolhe o tratamento - um que dá umas chatices de ter que dar medicamentos e tratamentos cuidados mas que demora algum tempo a fazer efeito ou outro que faz efeito imediato e não dá nenhuma chatice. Esquisito.
Mais esquisito ainda é que muitas das associações que recolhem animais das ruas nem sequer foram ouvidas mas aquelas que criam animais com fins económicos até "ajudaram" a criar a nova lei. Acho que nem é preciso dizer mais nada.
É pena que se perca esta oportunidade para legislar em defesa dos animais. Tinha esperança que a lei fosse verdadeiramente mais à frente e que defendesse aquilo que é mais importante e que, de uma vez por todas, retirasse os animais do sofrimento por que muitos passam.
Desde logo, era essencial uma lei que proibisse vestir roupinhas aos bichos e que impedisse que se fizessem penteados com caracóis ou de pêlo esticado. E que proibisse redondamente que, de 30 em 30 segundos, houvesse alguém a pôr uma foto do seu animal no facebook.
E, ah, falta a mais importante - uma lei que proibisse a atribuição de nomes de pessoas casadas comigo a animais. Esta devia ser mesmo punível com pena de prisão de alta segurança.
No outro dia, ia a passar pelo parque quando oiço uma velhota aos berros:
"Ó Dalila, pára com isso! Já te disse, Dalila! DALILAAAA!!!"
Bolas, a pobre da caniche não merecia aquilo. Nem eu.
Olhar de repente para uma velhota aos berros a apontar para alguém na relva, que não se consegue ver à primeira vista quem era, por ter feito as suas necessidades na relva e cujo nome é o mesmo da minha Maria, pode ter um efeito traumatizante numa pessoa.
Já não bastava a outra actriz que faz sempre dela própria ter o nome da minha Maria, agora tenho que levar com a besta da vizinha.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Venham de lá esses armários suecos


A semana passada fui com um colega ver o jogo da Selecção contra Israel no Estádio de Alvalade. Nunca tinha visto o Ronaldo jogar e, na altura, pareceu-nos boa ideia...
Chegámos mais cedo ao estádio para termos tempo de ir à rulote do Rei das Bifanas, mas ainda nem tínhamos tirado a mostarda dos cantos da boca, quando uma rapariga se chegou ao pé de nós para nos fazer um inquérito sobre telecomunicações. O meu colega ofereceu-se logo (nem sei porquê - o decote dela não era assim tão grande) mas eu já só pensava em ir para o estádio. A rapariga sacou do inquérito e começou por querer saber quantos canais ele tinha em casa e a velocidade da internet. Ao fim de 10 minutos, já queria saber qual era o clube dele, se ele ia muito ou pouco ao cinema, o número de telefone, a morada e o nome completo. Já vi técnicas de engate melhores mas, mesmo assim, não estava nada mal. No fim, a rapariga virou-se para mim e perguntou-me se eu também queria. Recusei o convite educadamente. Ainda há coisas em que sou muito conservador.
Entretanto entrámos para procurar os nossos lugares. Quando se tem bilhetes para lugares quase no meio das nuvens, convém ir com algum tempo de antecedência. Encontrei os lugares ao fim de muitos degraus mas o meu colega preveniu-me que os nossos eram na fila 27 e não 21, como me tinha parecido. Olhei para as escadas mas faltou-me a coragem. E então combinámos que se alguém reclamasse os lugares, sairíamos prontamente e iríamos para os nossos, mesmo que para isso ficássemos a bater com a cabeça na cobertura do estádio e o Moutinho, visto de lá, ficasse a parecer da mesma altura que o Ronaldo.
O jogo lá começou e ao meu lado sentou-se um casal de namorados. O tipo devia ter algum problema no pescoço, porque nunca virava a cabeça para o meu lado. Tentei meter conversa, dizendo que o Hugo Almeida é que devia ser o treinador, porque passava o tempo a ver os colegas a jogar, mas o tipo nada. Voltei a mandar umas bacoradas sobre o Nani estar a jogar com chuteiras de betão e por o São Patrício ter deixado a auréola em casa mas nada. Nem para me mandar calar o tipo abriu a boca. Estranhei. A verdade é que eu e o meu colega também estávamos a ficar chateados. Não tínhamos planeado ver um jogo solteiros vs casados, mas pronto. Quando o intervalo chegou, levantámo-nos e passámos por eles para irmos ao wc (em qualidade de wc's o Sporting dá 10-0 ao meu Benfas...). Ao passarmos pelo casalinho, dei conta da namorada estar a azucrinar a cabeça ao homem porque ele não foi capaz de nos dizer que estávamos mal sentados. Eu sei que pareço uma pessoa super inacessível, especialmente quando digo coisas do calibre cultural de "Ruben Micael, és tão mau que nem a Sofia Ribeiro te queria, pá!", ou algo mais sofisticado como "Ó Ronaldo, vai masé pó c******!", mas caramba, sou uma pessoa sensível e bem educada. E aquilo mexeu com os meus sentimentos.
Tanto que depois do intervalo não voltámos àqueles lugares, nem aos nossos que, por aquela altura, já estavam ocupados. Preferimos ficar nas escadas ao fundo da bancada. Não se via grande coisa mas pelo menos ninguém teve cãibras nas pernas - escalar uma bancada não é para qualquer um.
E só tive pena que não desse mesmo para ver nada. Mas bem, o golo de Israel a 5 minutos do fim teve os seus pontos positivos: deu para acordar o pessoal das bancadas (se não fosse aquilo, os seguranças do estádio iam ter que andar de banco em banco no fim do jogo a acordar as pessoas) e fez com que o Rui Patrício pudesse pronunciar as suas palavras imortais, no fim do jogo:
"Bem, agora o que é preciso é levantar a cabeça."
E agora venha de lá o Ibrahimovic, desculpem, a Suécia. Se não adormecermos, até os comemos.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Para sobreviver às reuniões de trabalho


Longe vão os tempos em que tive a minha primeira reunião de trabalho. Mas, curiosamente, lembro-me como se tivesse sido hoje - estava eu e a minha chefe com dois clientes e levei um pontapé dela debaixo da mesa daqueles que, por mais que tente, não consigo esquecer. E eu bem que preciso de espaço no cérebro para coisas mais interessantes.
Diz-se que os primeiros ensinamentos são os que ficam para sempre. Com aquele pontapé, aprendi num instante que não se deve desenhar as pessoas que estão à nossa frente, especialmente quando temos o caderno poisado sobre a mesa e toda a gente está a topar. Mesmo que (e isto é importante) o que se estiver a dizer não seja importante e os tipos tenham uns óculos e um bigode que estejam mesmo a pedir um boneco no caderno.
Desde esse dia, muito em mim mudou. Sou uma pessoa com mais experiência e com outra forma de estar. Posso dizer, com toda a firmeza, que evoluí muito e não sou mais o irresponsável que era.
Agora desenho as pessoas com o caderno levantado para mim, de maneira a que ninguém veja o que estou a fazer. E se alguém olhar com reprovação, achando que estou, infantilmente, a fazer uns bonecos, basta parar um pouco, olhar a pessoa nos olhos, abanar a cabeça três vezes (como se estivéssemos a concordar com aquilo que está a ser dito na reunião) e tudo volta ao normal, com toda a gente convencida que estávamos era a tirar apontamentos.
E se, porventura, alguém perguntar se apontámos uma determinada informação dada na reunião, o procedimento a tomar também é simples. Mas tem que ser feito com naturalidade, senão a coisa não pega. É só responder:
- Olha, que curioso. Ia mesmo para te perguntar isso. É que também, logo por azar, não consegui tirar apontamentos sobre essa parte.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ups, I did it again...


A caminho do jantar com a patroa e colegas de trabalho da Maria:
Maria - Olha, agora no jantar com a minha patroa, como tu não a conheces, nem os meus colegas do trabalho, queria-te pedir se podias ter cuidado com as palermices que dizes.
Eu - Palermices, eu? Fogo, tu é que arranjas sempre colegas sem sentido de humor.
Maria - A sério. Eu estou a falar a sério. Não me envergonhes, pode ser?
Eu - Poxa, fica descansada. Eu sei-me comportar. Vou estar sério toda a noite.
Maria - Fazes isso por mim?
Eu - Faço, claro.... Mas sabes que às vezes é preciso alguém que corte os momentos de silêncio pesado. E uma piadola fica sempre...
Maria - Olha, deixa estar. De qualquer das maneiras eu já lhes pedi desculpa por aquilo que provavelmente vais dizer durante o jantar.

A caminho de casa, depois do jantar:
Maria - XIÇA, EU NÃO TE TINHA PEDIDO PARA NÃO ME ENVERGONHARES?
Eu - Desculpa... Às vezes não tenho tempo de ensaiar as piadas e elas saem-me mal... É que parecia mesmo que ia ter piada...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ser gajo é mais difícil do que parece


A semana passada, vinha eu com a minha irmã alegremente a descer umas escadas, em direcção à praceta da estação do Rossio, quando nos apercebemos de que algo não batia certo.
Um tipo de chinelos, e aspecto de quem tem uma dívida maior que a da república para com o chuveiro, atravessa a praceta a correr desenfreadamente em direcção às escadas, por onde descíamos. Ainda pensei que o tipo estivesse a acabar de acordar e com medo de perder o comboio. Mas depressa percebi que não, e não foi por ele estar a correr no sentido oposto ao da estação. (quem nunca adormeceu e acordou de repente e começou a correr para a primeira direcção que apareceu à frente? vá lá, não me deixem sozinho nisto...) O tipo estava era a fugir de dois gorilas que vinham a correr atrás dele e que gritavam a plenos pulmões para alguém agarrar o Usain Bolt de chinelos, que, de imediato, atirou ao chão uma mochila que trazia.
Quando percebi o que se estava a passar, fiquei logo chateado. Esta é uma daquelas situações em que é extremamente complicado ser homem. Quer dizer, homem não. Gajo. É mesmo difícil ser gajo nestes casos. Ser mulher não, isso é extremamente simples. Basta encolherem-se para o lado e ficarem assustadas e mais nada. A minha irmã teve um desempenho de mulher impecável. Mas para um gajo é muito mais complicado.
Ora vamos lá ver. Se eu tentasse agarrar o tipo, arriscava-me a levar uma pêra bem servida, o tipo fugia e ficaria tudo a olhar para mim com pena. Se eu o agarrasse com eficácia e o entregasse aos gandulos, podia estar a entregá-lo a uns tipos piores do que ele (eu não fazia ideia se os tipos que o perseguiam eram polícias ou não), e ficava tudo a olhar para mim fazendo-me sentir um paspalho. Se eu não fizesse nada, ficava tudo a olhar para mim com reprovação, fazendo-me sentir um coninhas. Parecia um beco sem saída.
Felizmente, o meu cérebro tem idiotices ideias muito rapidamente e, graças a isso, encontrei a solução ideal. O tipo ia a passar por mim e eu... dei-lhe um encontrão. O tipo tropeçou nos degraus, insultou-me e, com isso, perdeu tempo e os tipos que vinham atrás, e que eram mesmo polícias, apanharam-no. Se não fossem polícias, ninguém me podia fazer sentir mal, porque eu não o tinha agarrado. Mas, como eram, senti-me um verdadeiro herói.
E o melhor foi que tive, logo ali, a recompensa que tanto queria: ninguém olhou para mim.
Até fiquei emocionado.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A vantagem das farmácias é não terem taxas moderadoras


Depois de duas semanas de dores de corpo, de garganta, de ranho constante e de ouvidos tapados (que davam a sensação espectacular de viver debaixo do mar) perdi, por fim, a batalha. Não para o ranho, que enquanto houver papel higiénico com fantasmas a quem eu possa vestir uma roupinha pegajosa cá estarei para o fazer. Perdi a batalha foi para a Maria que se fartou das minhas lamúrias e lá acabei por ceder e ir com ela à farmácia. Quer dizer, na prática, não foi bem uma derrota. Ela queria-me levar ao Centro de Saúde mas, após algumas negociações (que envolveram a garantia de fazer algumas tarefas domésticas que envolvem sanitas e piassabas - mas ainda não estou pronto para falar sobre isso...) lá consegui que a coisa se ficasse pela farmácia. Os Centros de Saúde são para pessoas realmente doentes. E eu não estava. Agora que penso nisso, acho que nem nunca estive.
O problema foi que a Maria não me deixou ir sozinho. E eu até já tinha tudo pensado: entrava na farmácia, cumprimentava a senhora, pedia pelo amor de Deus para não me por na rua durante 5 minutos e depois voltava a dizer que não me tinham receitado nada. Era simples, eficaz e livrava-me da sanita.
Mas não. A menina também tinha ir. Mal entrámos, não consegui dizer uma palavra. A Maria agarrou-se de tal maneira à farmacêutica a implorar que me desse alguma coisa para não me aturar temer pela minha saúde que a única coisa credível que eu poderia dizer à farmacêutica é que estava a ser raptado e que precisava que ela chamasse a polícia. Só não o fiz porque, da maneira que estava, precisa de alguém que levasse o carro para casa. E do jeito que eu estava, achei por bem não arriscar.
A verdade é que vim de lá rendido à farmacêutica e à sua genialidade. Tenho uns comprimidos que me deixam completamente zen (e que, pelo menos na perspectiva da Maria, são espectaculares - está-me sempre a perguntar se já os tomei) mas a verdadeira maravilha é o vaporizador de água do mar.
Dantes, sentia que vivia debaixo do mar apenas por ter os ouvidos tapados. E isso, claramente, era um problema e a senhora percebeu isso. Agora, sim. Sinto que vivo debaixo do mar por ter os ouvidos tapados e por ver tudo mais clarinho e aguado. Pelo menos de cada vez que vaporizo aquele esguicho assassino pelo nariz acima. Consigo ver o esguicho a passar dentro dos olhos e, depois, fico numa choradeira toda a tarde.
A expressão "peixe fora de água" nunca fez tanto sentido como agora...