domingo, 28 de julho de 2013

Descobri o meu super-poder


Agora que terminou a época de casamentos 2012/2013, é altura de fazer o respectivo balanço. De entre as várias conclusões a que cheguei, a mais importante que tirei é que, quando vou a casamentos de amigos com a Maria acontece sempre uma coisa extraordinária. Ok, talvez duas, se contar com o facto de duas pessoas unirem as suas vidas para sempre, com um amor eterno que torna o mundo num sítio melhor e permite ter esperança na Humanidade.
A coisa extraordinária de que estou a falar é que, tanto eu como a Maria, nos transformamos numa espécie de super-heróis. É verdade. Acontece sem darmos conta, por isso acredito que os nossos super-poderes ainda devem estar a despontar, mas dá-me a ideia de que vão crescer no futuro. Até já escolhi os nossos nomes - a Maria vai ser simplesmente a Princesa e eu vou ser o Mordomo que Percebe de Moda Feminina Especialmente Aquela que a Maria Veste. Só pelos nomes dá logo para ver o poder que nos rodeia e, por aquilo que vejo nestes dias, não devemos ser os únicos com estes poderes.
Senão, vejam. Nestes dias, a Maria veste o seu melhor vestido, pinta as unhas, arranja o cabelo, põe maquilhagem, calça sapatos com um salto tão grande que fico sem perceber como é que não anda tombada para a frente e usa uma carteirinha onde só cabe o telemóvel (se for eu a fechar a dita,os óculos escuros também cabem). Passa o dia inteiro sem se conseguir mexer muito, a não ser, talvez com a língua, claro.
Já eu, levanto-me 3 horas antes da boda para... ir lavar o carro. Em mais nenhum dia eu o faria. Se tivesse uma reunião de trabalho com um tipo importante e levasse o carro, nunca o lavaria. Em vez disso, o mais certo seria desculpar-me com a sujidade exterior do carro dizendo que um camião de porcos se tinha despistado à minha frente a caminho da reunião e com a sujidade interior dizendo que a Maria tinha andado com o carro sem eu saber. Mas nos dias de casamento, não sei porquê, vou lavar o carro e nem me queixo à Maria de ter que tirar as 2 toneladas de lixo que ela lá deixa nem nada. Estranho.
Depois, chego a casa e faço a barba. Esta é tão estranha que nem vou comentar. A seguir visto um fato, com a gravata de cor igual à da Princesa. Este pormenor é importante. Tenho visto nos casamentos mais casais que aparentam ter os mesmos super-poderes que nós. Por isso é importante que cada Princesa distinga bem o seu Mordomo.
Finalmente, pego na mãozinha da Princesa e vamos para o carro. Oiço duas bocas acerca da falta de limpeza no tablier e na ausência de um perfumezinho, repondo 10 vezes afirmativamente à pergunta: "Estou bem? Vê lá? Estou mesmo bem? A sério, vê lá se estou bem.", ligo o carro e seguimos para a festa.
Já na festa, anoto os pedidos de canapés e bebidas para a Maria e vou buscar. Geralmente vou ao bar com outros Mordomos e aproveitamos para beber qualquer coisa. Não convém que a Maria saiba porque, já se sabe, quem conduz não bebe e a qualquer hora posso ter que ir a casa buscar os sapatinhos rasos que ela lá deixou esquecidos.
Outra das minhas ocupações, durante a comezaina, é responder sempre negativamente às perguntas "Estás a olhar para o decote daquela? Está mais bem vestida do que eu? Está, não está? Nota-se muito que fiz aqui uma nódoa no vestido com uma azeitona?" e afirmativamente a "Estou bem? Mesmo? Não olhaste para mim quando respondeste." Aqui até parece fácil, mas não aconselho a quem não tiver prática. Um simples pestanejar pode deitar tudo a perder. Ser Mordomo não é para meninos.
E a quem acha que isto não são super-poderes, eu pergunto que outro motivo me faria aguentar (quase) tanto tempo a dançar como a Maria, no bailarico da festa. Sim, porque quando saímos à noite num dia normal, o mais que consigo fazer é bater com o pé no chão e ficar a ver a Maria a dançar.
No final do dia, outra das obrigações do Mordomo é ceder o casaco à Princesa já que, por estranho que possa parecer, a "echarpe não aquece o suficiente". Esquisito. Aquilo tem um ar tão quentinho...
O dia termina com a viagem de regresso a casa, onde trago sempre o carro com suavidade, como um bom Mordomo o faz. A Princesa está cansada e precisa de descansar.

Por fim, deixo só aqui um conselho a quem só agora descobriu o seu super-poder: se, eventualmente, o vosso teor alcoólico for elevado e conduzirem aos arranques até casa passarem por cima de um buraco na estrada, olhem a vossa Maria nos olhos e digam com convicção:
"Este foi giro mas o nosso casamento foi (ou vai ser) muito mais bonito!"
Se for com convicção, podem ir em primeira até casa sem problema nenhum.
À confiança.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um calor selectivo


Um tipo passa o ano inteiro a dormir de pelota para conseguir aguentar os 5 cobertores e o edredão que a Maria precisa para se sentir "quentinha" de noite, a suar que nem um porco, sujeito a ser acusado de ainda fazer xixi na cama.
Um tipo tem que aguentar as viagens de carro, o ano todo, a conduzir de t-shirt (em tronco nu parece que é proibido) porque a chauffage, quer dizer, a sofagem (esqueço-me sempre que é uma palavra derivada de sofá) vai sempre no máximo, para S. Exa. Maria não ter frio, porque o calor, esse malandro, só aparece acima dos 30º.
Um tipo não pode, em altura nenhuma do ano, arrumar o aquecedor de casa, porque nunca se sabe quando é que a temperatura vai baixar e, nestas coisas, já se sabe, "uma pessoa gosta de se sentir confortável na sua própria casa, não achas?"

Um tipo tem que disfarçar a cara de palerma com que fica quando, ano após ano, no primeiro dia em que vai à praia e a água do mar está completamente gelada, a Maria entra pelo mar adentro como se estivesse numa sauna, a gritar "Está tão booooaaaa! Anda lá, não sejas totóóó!". E o pior é que um gajo não consegue reagir porque os pés acabaram de congelar ao tocar naquela mesma água e, andar para a frente, mesmo que se quisesse, torna-se impossível porque se deixou de sentir o que quer que exista dos tornozelos para baixo. E responder também é melhor não, já que o tom de voz nestas situações poderia levar alguém a pensar que alguma parte do meu corpo poderia ter sido, vamos lá, amputada.
Mas ainda não perdi a esperança de um dia conseguir perceber porque é que alguém com 15º de temperatura ambiente tem que vestir uma samarra, mas com 15º de temperatura no mar, um bikini chega perfeitamente. É que não consigo mesmo perceb... Oi. Espera lá. Será que os bikinis aquecem? Às tantas é isso. Tu queres ver... Tenho que experimentar isso. Só para perceber se é daí, claro.

(Eu acho piada aqueles tipos que dizem que vão ao banho ao mar porque adoram e é espectacular e mais não sei quê. Eu, pelo menos, não tenho problemas de admitir que vou ao banho por causa do meu estúpido orgulho masculino. Se a Maria vai, eu também tenho de ir. Se a Maria vai e se putos de 8 anos ficam a olhar para um gajo com aquele ar pensativo de quem está a tentar perceber que problema é que um gajo tem para não ir à água. Não fosse isso e ninguém me arrancava da toalha.)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O incómodo de andar de metro


Há dias, vinha eu no metro, quando se senta um cavalheiro francês ao meu lado. O senhor já era frequentador da 3a idade e trazia consigo o "Le Monde", que lhe atestava a nacionalidade e o grau superior de inteligência.
O culto senhor senta-se, abre o jornal e, nem dois segundos depois, olha para mim muito sério, passa a mão entre a perna dele e a minha (que se tinha encostado involuntariamente) várias vezes seguidas, e exlama, com um ar meio creepy:
- Regardez!
Completamente aparvalhado, fiquei ali uns segundos a tentar perceber o que é que se tinha passado e cheguei à conclusão que só podia ser uma de 3 coisas:
1) O meu odor corporal estava a incomodar o senhor e ele queria que eu me afastasse para o mais longe possível.
2) O homem achava que eu era panisgas e que me estava a fazer ao piso por ter a minha perna encostada à dele e quis mostrar que não estava interessado.
3) Aquilo tinha sido fruto de algum delírio meu, que, com tanto calor, imaginei coisas que não tinham acontecido.
Apesar de estar mais inclinado para a 3a hipótese, apertei os braços contra o corpo para fechar bem a sovaqueira e pus a mão com aliança de casado no colo. Entretanto percebi que estava a ser estúpido e parei com aquilo. Afinal de contas, tinha posto desodorizante e o casamento gay já é legal há uns tempos.
Tentei não pensar mais no assunto mas, quando o metro parou na estação seguinte, o homem levantou-se de imediato e foi para os lugares da frente, que tinham ficado vagos. Ao virar-se, mandou-me duas faíscas com os olhos que até fiquei a bater mal.
Se a coisa estava a ser surreal, ainda mais ficou quando, na paragem seguinte, entrou um senhor com os seus calções e sandálias com meias brancas e se sentou ao pé do homofóbico. Aquilo que eu já estava a ficar certo de ter sido imaginação voltou a repetir-se: a mesma mão a afastar a perna do homem e a mesma expressão creepy. A única diferença foi que, desta vez, a exclamação aziada foi: "Attention!" Uma coisa era certa - o homem tinha bastante vocabulário.
Ao olhar para o homem que ia ao lado dele, fiquei com a ideia de me estar a ver uns instantes atrás tal foi a expressão de aparvalhamento na cara dele. A única diferença foi que ele não deve ter tido tempo para acreditar que aquilo estava mesmo a acontecer porque, naquela altura, chegámos a uma estação onde entrou uma rebanhada de gente que, ao passar pelo superior francês, lhe tocava involuntariamente nos braços, nos pés e nas pernas fazendo a cabeça do homem rodar que nem um pião, tentando perceber quem se atrevia a perturbar a sua leitura. Foi o suficiente para o fazer sair na estação seguinte.

Agora a sério: eu compreendo bem o homem e sei bem o que ele estava a sofrer. Há dias, no mesmo metro, completamente cheio de gente e com um calor desgraçado, iam umas moçoilas bem constituídas de bikini em pé ao meu lado (certamente a caminho da praia), sempre a tocar-me por causa dos balanços da carruagem e aquilo também já me estava a deixar incomodado.
A minha sorte foi ainda não estar na 3a idade. Senão também teria saído na estação seguinte.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

É nestas alturas que gosto de ter pouco pêlo


Há pessoas que só lhes dão da comida mais cara.
Há pessoas que lhes passam creme hidratante.
Há pessoas que lhes limpam o rabo depois das necessidades.
Há pessoas que lhes dão banho todos os dias.
Há pessoas que os escovam dia sim dia não, mesmo que eles lhes risquem o cromado todo.
Há pessoas que os levam todas as semanas ao veterinário.
Há pessoas que os enchem de beijos. (Maria, como é que é possível?)

Eu abro a porta do frigorífico ao meu gato para ele se refrescar.

E acho que estamos conversados quanto a quem toma melhor conta do seu animal de estimação.

sábado, 6 de julho de 2013

Portas, nós cá nos arranjamos sem ti, a sério


Aqui há uns dias, no dia 2 de Julho para ser mais preciso, fui com uma das minhas irmãs à Loja do Cidadão. Tínhamos umas dúvidas sobre descontos para esclarecer no balcão das Finanças e, como o Gaspar se tinha demitido de véspera, não perdemos tempo e fomos lá. Se o tipo que aumentou os impostos sai (e toda a gente, alguns até no próprio Governo, dizia que era contra esse "enorme" aumento), os impostos descem, certo? Certinho direitinho. E antes que arranjassem outro fantoche da troika para lá porem, não havia um minuto a perder.
Para além do mais, mesmo que ainda não houvessem boas notícias, havia sempre a possibilidade de por o sono em dia. As pessoas que estão a atender são muito atenciosas - chegam ao ponto de trabalhar mais devagar silenciosamente só para não fazerem barulho e não acordarem quem está a repousar.
À chegada, tirámos a senha e tivemos logo ali uma boa notícia - só estavam 44 pessoas à nossa frente. A demissão do Gaspar devia ter passado despercebida a muita gente, mas ainda bem para nós. Aquilo ia passar num instante. Demos a volta ao pé do balcão e uma segunda boa notícia - em 7 mesas de atendimento, estavam 2 pessoas a atender. Espectacular. Ora bem, 44 pessoas para 2 mesas, dava 22 pessoas por mesa. Se cada uma demorasse 5 minutos, só tínhamos que esperar 110 minutos - 1h50m! Isto sem contar com as desistências, claro. O mais certo seria esperar só 1h40m. Era, claramente, o nosso dia de sorte.
Ficámos por ali uns minutos, só para analisar a taxa de desistências e medir o tempo médio de atendimento, e fomos beber um café. O segurança informou-nos que já não tinham máquinas automáticas mas que havia um café muito bom mesmo ao lado da loja. Ia eu para agradecer a amabilidade ao homem quando ele se senta e continua a preencher uma lista de nomes enorme. Já tinha reparado que muitos seguranças nas Lojas do Cidadão o faziam. Mas só desta vez é que se fez luz na minha cabeça - era uma lista de pessoas que ele já tinha mandado para o café do lado para ir lá entregar ao dono no fim do dia. A vida está difícil e todos temos que fazer por ela. Compreendo perfeitamente e se fosse eu, acho que até uma carta de menus do café lá teria comigo para mostrar às pessoas.
No café estava um ambiente muito animado. O dono olhou para mim e deve ter visto a senha da Loja do Cidadão que eu ainda trazia na mão, porque fez logo um sorrisinho. Fizemos o pedido e olhei em volta para ver a razão daquele ambiente. Na televisão ao canto, passava a confirmação de que estava a ser um dia de sorte daqueles que aparecem uma vez em cada 31 anos - o Portas tinha-se demitido e havia já comentadores que previam a queda do Governo ou, pelo menos, a demissão dos restantes ministros do CDS.
Voltámos para a Loja e pumbas, nova boa notícia - a malta deve ter saído para festejar e fomos atendidos apenas 1h35m depois de termos chegado. Pronto, ok. Deve ter sido só uma pessoa. As outras duas tinham desistido mesmo.
A senhora que nos atendeu foi muito simpática mas explicou-nos que teríamos que ir resolver o nosso problema à Segurança Social e não ali. Para mim, descontos são descontos e às vezes tenho alguma dificuldade em distinguir o ministério que me engole os rendimentos.
Àquela hora já não havia senhas para a Segurança Social mas não me preocupei. Com a saída do Portas, o mais certo seria o ministro Mota Soares, do CDS, também se demitir no dia seguinte. E depois, já se sabe. Se o tipo que aumentou as contribuições para a Segurança Social sai, os descontos diminuem, certo?
O problema é que, depois de uma semana em stress, à espera a qualquer momento da saída do CDS, sem saber que dia planear para ir à Loja do Cidadão, parece que afinal o CDS fica no Governo e o Portas também.
Este pessoal ainda não percebeu que os portugueses precisam de saber com o que contam para poderem planear a sua vida. E se nem o dia em que se tem que voltar à Loja do Cidadão se consegue prever, já pouco ou nada lá estarão a fazer e mais valia que fossem embora.
Só pedia era que fossem embora numa 3a feira. Às 2as, a Loja do Cidadão está que não se pode.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Agora, até de olhos fechados


Depois de algumas semanas a procurar um substituto em 2ª mão para o meu Nokia (que preferiu ir no tabuleiro do MacDonalds do que voltar comigo para casa) nos Olx e ebays desta vida, tive a sorte de um amigo meu me vender um que já não precisava. E digo sorte porque nesses sites só se encontram telemóveis quase ao preço deles em 1ª mão. A malta enche-os de valor afectivo e depois é o que dá.
Quando me chegou às mãos, tratei logo de o configurar à minha maneira - a data, as horas, as aplicações no ecrã, a foto da Maria no ambiente de trabalho, os toques até que, ao configurar a conta de email, não consegui eliminar o registo de utilizador do anterior dono que ainda lá estava.
Como toda a gente sabe, ler o livro de instruções de qualquer electrodoméstico reduz o tamanho do órgão sexual masculino, por isso, com medo de retaliações da Maria, só tive uma opção - experimentar todas as funções do telemóvel até que alguma libertasse a gaita do registo anterior da conta de mail.
Procurei, procurei, procurei até que encontrei a função "Repor desktop". Era aquilo. Só podia ser. A única dúvida era - repor o desktop como ele era quando? Como não consegui encontrar uma resposta, percebi logo que isso não podia ser importante. Tinha a certeza que aquilo me resolvia o problema do registo da conta de mail, e isso é que importava.
É verdade que o telemóvel me perguntou se queria mesmo avançar com aquilo porque depois de aceitar não haveria volta a dar, mas tanto preciosismo já me começava a irritar. Eu só queria resolver o problema do registo.
Cliquei para seguir em frente e.. resolvi o problema. Fiquei mesmo orgulhoso de mim. Demorei foi um bocadito a perceber que o tinha resolvido. É que Coreano não é o meu forte. Quer dizer, se era Coreano ou Chinês não sei. Uma coisa é certa - era uma língua qualquer inventada por um miúdo de 2 anos.
Mas lá que foi uma tarde de Domingo bem divertida a descobrir como o voltar a pôr em português, lá isso foi. Graças a isso, devo ser das poucas pessoas no mundo que sabem trabalhar com telemóveis de olhos fechados.

sábado, 15 de junho de 2013

Hoje vou guardar o que sinto só para mim


Hoje vou guardar tudo aquilo que sinto dentro de mim. Não vou despejar tudo o que me está a fazer contorcer de dores e me revolve o estômago. Por muito que me apeteça deitar a porcaria que sinto no meu íntimo cá para fora, hoje vou ser assim.
Mas espero que só tenha que ser assim da parte da manhã. É que tenho a gaita da sanita entupida.
Que mal é que eu fiz para merecer isto? (não precisam de responder, agora que pensei nisso, tenho uma ou outra vaga ideia do que possa ter sido)
À terceira panela de água a ferver, ponho as minhas esperanças todas na Coca-Cola Dia...
Vai ser um longo dia.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Descobri a solução para a Justiça andar mais depressa


Pela segunda vez na minha vida (terceira, se contar com aquela vez em que entrei só para perguntar se podia deixar o carro no parque de estacionamento em frente), fui a um Tribunal.
Desta vez, fui como testemunha num caso entre uma empresa onde trabalhei e outra, numa história que já vem de alguns anos atrás. O caso era bastante simples - a empresa onde trabalhei fez uns trabalhos para outra e não foi paga por isso, apesar da empresa que recebeu os trabalhos admitir que eles foram feitos e bem feitos.
A coisa parecia-me extraordinariamente simples, tão simples que eu nem conseguia perceber como era preciso um Juiz para a resolver. De qualquer das formas, para não facilitar, não só estudei todo o processo, como escolhi uma roupinha séria e até fiz a barba. Ah, e também tomei banho.
Antes do julgamento (só o nome já mete respeito), quando me encontrei com o advogado da empresa onde trabalhei, a primeira coisa que me explicou foi a forma como eu deveria falar e a postura que deveria adoptar - calmo, assertivo e confiante. Depois, olhou-me para a roupa e não disse nada. Na vez anterior em que tinha estado com ele, criticou-me por ter levado uma mochila. Não percebi muito bem o que é que isso tinha que ver com o apuramento da verdade, (ainda para mais vindo de alguém que usa um bibe dos pés à cabeça todo preto) mas deixei-o levar a bicicleta. Por fim, explicou-me as perguntas que me iria fazer e aquilo que eu poderia e deveria responder em cada uma, de forma a não criar dúvidas ao Juiz.
Depois dos conselhos, e como o caso me parecia tão simples e directo que até dava para ser o meu gato a depor já que havia documentos escritos que comprovavam tudo, não resisti e perguntei-lhe:
 - Se está provado que os trabalhos foram feitos, isto são favas contadas, ou não?
Ao que o homem me respondeu, para me deixar mais descansado:
 - Depende de si. Quando o advogado deles o questionar, não trema nas respostas. É que se isso acontecer, podem achar que temos fragilidades e depois o Juiz pode ficar na dúvida se temos razão ou não.
 - Pois mas, um julgamento é sempre uma situação stressante. Caramba, mas não há documentos que comprovam os factos?
E foi aí que o homem acabou com a conversa:
 - É pá, você não me está a ouvir com atenção. Não percebeu o que acabei de lhe explicar?

O que é certo é que o caso foi resolvido por acordo antes da audiência. Às tantas foi por eu estar a abanar muito a perna, quando estava sentado no corredor antes da audiência e o homem não quis arriscar e ficou mais descansado com um acordo.
Cá para mim, se houvesse mais testemunhas nervosas como eu, havia mais acordos e a Justiça não era o que se vê. A malta vai para os julgamentos cheia de confiança e depois o Juiz não sabe em quem acreditar.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A maneira mais cruel de um gajo ver que está a ficar velho


Este fim de semana fui a uma festa de aniversário e vim de lá a sentir-me mais velho e acabado que nunca.
Não foi por ser a festa do 1º aniversário do 1º filho da malta da faculdade nem por o miúdo olhar para mim como se eu fosse um serial killer e se agarrasse ao pai com quantas forças tinha, com aquele ar de quem deseja secretamente que o pai desse um enxerto de pancada ao gadelhudo que não parava de lhe querer pegar ao colo.
Também não foi por 75% dos meus colegas da faculdade que ainda não foram pais estarem de esperanças (ou a pensar tratar do assunto) fazendo com que toda a conversa girasse à volta desse facto, levando-me a saber coisas tão importantes como ser preciso tomar ácido fólico para engravidar (ainda não descobri se é só para as mulheres ou se é para os homens também) ou que amamentar dói (neste caso, apesar de ninguém ter dito, acho que só dói mesmo às mulheres).
E muito menos foi por a malta ter oferecido um triciclo da Chicco ao aniversariante, quando há uns anos teríamos certamente comprado um da Chiko ou mesmo daquela outra marca, a Xico.
Foi por uma coisa bem mais cruel, que mostra que o impiedoso ciclo da vida não perdoa ninguém.
A festinha teve direito a almoço no pátio da casa, para aproveitar o bonito dia de sol que estava. Antes do almoço, para acompanhar a conversa, bebi um copo de licor, ao almoço um copo de vinho e, a seguir à sobremesa e ao café, o tradicional digestivo. Tudo normal. O problema é que o meu fígado está farto de me aturar e mandou o cérebro resolver o assunto. Resultado - uma dor de cabeça como há muito não tinha.
E de nada valeu dizer à Maria que tinha sido por causa do sol na cabeça durante toda a tarde. A última coisa de que me lembro nesse dia foi de chegar a casa, aterrar no sofá da sala, tapar-me com um cobertor e ouvir a Maria:
"Já não tens idade para beber assim, caneco. Já devias saber."

PS: Ainda tenho uma secreta esperança que tenha sido por falta de treino. Tenho saído pouco. É por isso, de certeza. Tem que ser. Para a semana tenho um casamento e vou tirar este assunto a limpo. Assim a Maria deixe.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Post de autoajuda


Há dias em que tudo parece mau:
O telemóvel vai no tabuleiro do MacDonalds e temos que voltar ao velhinho tijolo.
O computador da Maria cai ao chão e o ecran passa a funcionar só em metade do tamanho.
O trabalho corre mal e dá a ideia de que se vai viver para debaixo da ponte porque mais ninguém vai querer o nosso trabalho.
O carro arranja uma avaria nova super irritante em que parece que está um piriquito debaixo do capot.
Jesus mostra vontade de passar a usar vestes azuis e brancas.
O gato passa por frestas de janelas e empoleira-se na guarda metálica (com 3cm de largura) da janela da cozinha, no 3º andar.

Mas não. Não é tudo mau, porque é nesses dias que se:
Volta a jogar o Snake, ideal para viagens de autocarro e metro.
Começa a treinar a lidar com um ecran de pc pequeno, para quando se comprar um tablet a adaptação ser mais fácil.
Apercebe que até conseguimos fazer coisas novas e diferentes no trabalho.
Descobre que pondo o auto-rádio mais alto a avaria do carro desaparece.
Deseja que o Jesus continue a ser o mesmo profissional com os mesmos resultados.
Vê que o gato não tem tendências suicidas e que afinal não estamos condenados a ter sempre as janelas fechadas.

Nota: este desenho foi feito mais tarde, após a acrobacia do menino, recorrendo à imaginação, depois de levar quase com um ataque cardíaco em cima. Estou a falar a sério. Não façam queixa de mim a nenhuma associação de defensores dos animais. É que nem uma foto tirei, caneco.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

É mais chata do que eu


Desde que fiz o meu blogue que tenho vindo a fazer headers para outros blogues. Eu sei. Vindo de um tipo cujo header do próprio blogue aparece com as letras cortadas, não era de esperar que isso acontecesse, mas é melhor não trazer esse assunto que às tantas ainda ninguém reparou e depois afugento a clientela.
Desta vez, o header foi uma prenda de uma blogger para outra, o que é sempre bom para aumentar o stress da coisa - não só é preciso agradar a quem nos pede como ficar a fazer figas para que a outra pessoa também goste.
Mas verdade seja dita que, neste caso, tive uma grande ajuda. Afinal de contas só tive que imaginar uma cena que conseguisse juntar: um vibrador massajador facial, uma garrafa de vinho Lambrusco, uma mala de senhora, um pacote de amendoins, um livro, um monte de vernizes, o Joge Jasus, o Glorioso e uma farmácia.
Com excepção do equipamento de vibração - ela não precisa, se é que entendem (estou a piscar o olho com olhar maroto), isso é praticamente a definição da mala da Maria. Quer dizer, vendo bem, há outra diferença: a foto que a Maria tem na mala não é do Jesus - é do seu "ai Jesus". (e volto a piscar o olho... é melhor não exagerar, certo?)
No blogue dela podem ver a versão a cores do boneco. E já agora, se não conhecem o blogue, aproveitem. São reflexões antropofilosóficas sérias acerca da problemática do atendimento de utentes de estabelecimentos de comercialização de fármacos em estados psicológicos adversos, cuja explicação acerca das suas enfermidades nem sempre é a mais correcta ou mais explícita, levando, por vezes, a lapsos de ordem farmacológica por parte da funcionária do estabelecimento, que a obrigam a exceder a sua capacidade de percepção do mundo que a rodeia e a superar-se, fazendo deste, no fundo, um mundo melhor, sabendo-se à partida das dificuldades acrescidas pelas quais a funcionária sofre por ser adepta de um clube praticante de futebol que equipa de vermelho.
Recomendo.

domingo, 19 de maio de 2013

A importância de "acertar as pontas"


Aqui há tempos, num jantar entre amigos, a conversa foi parar à política. Eu sei que é imperdoável mas caramba, os temas futebol, religião, profissões, famílias, livros, banda desenhada, poesia, música, passeios, viagens, terras de origem de cada um e gastronomia já se tinham esgotado. As alternativas já só se resumiam a Política e Big Brother Vip, por isso, e porque como já era tarde, escolhemos o tema com menos conteúdo.
Mas tendo em conta que anda tudo cheio de falar dos Passos Coelhos, Paulos Portas, Vítores Gaspares e Cavacos Silvas desta vida, era preciso que alguém lançasse o tema de forma convincente. Ao fim de 5 segundos calados há espera de um corajoso que conseguisse entrar no tema, oiço, do outro lado da mesa:
"Vamos eleger o melhor político da actualidade!" (eu sei, quando se quer mesmo muito conversar às 2 da manhã, a beber "refrescos" de Macieira, é preciso estar preparado para tudo)
Toda a gente gostou da ideia (sim, estávamos todos no mesmo barco) e as votações começam. O António Costa já ía destacado, até que chega a minha vez. Antes que eu pudesse  fazer a minha votação, levo um par de estalos verbal, que até fico com vontade de votar José Seguro:
"Vá, escolhe lá um de esquerda. Sim, com essa barba toda a gente sabe que és de esquerda!"
Oi? Barba de esquerda? Passo a mão na cara, sinto as saudades de 6 longas semanas afastado da minha lâmina de barbear (desde que foi passar umas férias à banheira e passear nas pernas da Maria que nunca mais a vi), olho em volta e fico sem perceber: todos os gajos têm barba grande mas só eu é que tenho barba de esquerda? Eu à espera de ouvir elogios do género "Ena, pareces o Bruno Nogueira na Odisseia! Ele é um tipo porreiro, por isso, tu também és de certeza! E giro. E altamente. E espectacul..." Mas nada disso. Ai, se fosse o Bruno Nogueira, era espectacular, como sou eu, sou só um tipo que gosta dos Comunistas e Bloquistas e que, às tantas, até tem um didgiridoo em casa e uns vasos na janela.
Dados os meus fracos conhecimentos na matéria, passei o resto da noite a tentar descortinar o porquê de só a minha barba, no meio de tantas, ser a única de "esquerda". Pelo tamanho não era. Pela farfalhudice também não, porque havia delas lá bem jeitosas. Já estava a desanimar quando me ocorre que, às tantas, por estúpido que possa parecer, era por não ter as pontas da barba aparadas. As barbas daqueles tipos estavam alinhadas nas bochechas e no pescoço. Tipo Miguel Frasquilho, estão a ver? Deputado do PSD, lá está! Tudo fazia sentido. E a minha não. Eu sempre achei que "acertar umas pontas" era coisa de mulheres quando iam ao cabeleireiro. Mas já se deve ter alastrado aos homens. Caramba, havia coisas bem melhores que os homens podiam roubar às mulheres sem ser os cuidados capilares. Roubar a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo tinha sido muito mais bem pensado.
Mas não deixa de ser incrível como cortar uns pelos nas bochechas e outros no pescoço pode logo alterar a área política de um gajo. Quer dizer, no jantar, quem ganhou a eleição do melhor político foi mesmo o António Costa com maioria absoluta por isso, às tantas, a barba acertada não é um exclusivo do pessoal de direita. Esperem lá, será que os tipos de esquerda que acertam a barba é porque querem passar despercebidos? Cada vez percebo menos disto. Vai na volta, o pessoal que acerta a barba nas bochechas e no pescoço é porque acha que fica bonito assim. Nááá....
Por via das dúvidas, na próxima vez que fizer a barba (deve estar para breve, a Maria já me disse: "A sério, já não te fica bem." sem se rir.), vou acertá-la nas bochechas e vou assim ao banco pedir um empréstimo, a ver o que é que acontece. Da última vez que a fiz, experimentei fazer a barba à Pacheco Pereira e fui à padaria comprar pão só para ver se me tratavam de forma diferente mas não consegui perceber se os papos-secos que me puseram no saco eram os "mais cozidinhos" ou não. Mas não volto a experimentar esse tipo de barba. Duas velhotas olharam para mim de uma maneira esquisita e não quero voltar a passar por isso.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Amanhã a taça é nossa


Tenho andado preocupado com uma coisa que me tem vindo a tirar o sono já desde sábado. Uma coisa que, a ser verdade, é capaz de deixar 6 milhões de pessoas chateadas comigo. Como isto me anda a corroer por dentro, decidi deitar tudo cá para fora.
Cá vai - tenho quase a certeza que o Glorioso perdeu no sábado por minha culpa. Sim. Há um culpado para o desaire e não é um tipo com o cabelo pelos ombros, impenteável e amarelado. É um que tem o cabelo quase pelos ombros, impenteável mas castanho. Sim. Moi même.
O Benfas, por mais dinheiro que gaste em jogadores e treinadores, só ganha quando eu estou a acompanhar os jogos - seja no estádio, pela televisão ou pelo rádio. As pessoas nem imaginam o que é a minha vida quando o SLB joga, e, mesmo com tanto esforço e dedicação, nunca recebi, sequer, um agradecimento da direcção do clube. Ou um cheque, vá.
Neste sábado, antes do jogo com o Porto, fui jantar a um centro comercial com a Maria. Para grande espanto da minha parte, na zona da restauração, todas as televisões estavam na tvi. Nada de Sportv. Como tinha que me despachar para apanhar o jogo nalguma loja, engoli a refeição à pressa. O que vale é que era daquelas de fast-food já pré-mastigadas. Com tantas vantagens que trazem, não sei como é que ainda há pessoas que dizem mal daquele tipo de comida.
Como a Maria não fazia ideia de que ía haver jogo e queria ir ver umas montras, aproveitei a dica e fomos dar uma volta por ali. Ela à procura de umas pulseiras, eu à procura de uma tv.
De passagem pela loja da Meo, vi um aglomerado de gente e saí disparado para lá, para "...ver o pacote da fibra...". A Maria, que não gosta de conversas sobre o pacote, foi dar uma voltita e eu prometi-lhe que seriam só 5 minutos - é o correspondente a 45 minutos a ver montras para ela.
O jogo começou com grande expectativa e bastaram uns minutos para o Lima marcar. Tudo estava a correr bem quando a senhora da Meo, que deve ser tímida e não gostar de plateias na sua loja, se levanta e, sem dó nem piedade, muda para a Sic. Instala-se o pânico em mim, sabendo o quanto a equipa precisava do meu apoio. Olho em volta e avisto ao longe um magote de pessoas numa loja tmn. Corro até lá e chego mesmo a tempo de... ver o "auto-golo" do Artur. Nada estava perdido, mas ficou o aviso - não me poderia distrair mais.
Passados 45 minutos certos, lá apareceu a Maria ao pé de mim. Esperámos só pelo tempo de compensação da primeira parte e resolvemos ir para casa. O intervalo dava o tempo suficiente para chegar até ao carro.
A viagem até casa a ouvir o relato foi relativamente calma, mesmo tendo em conta que, quando deixei de ouvir momentaneamente o relato para responder à Maria o que tinha almoçado, o Jackson Martinez fez um remate perigoso à baliza do Benfica. A culpa foi minha em achar que me podia desligar só um bocadinho do relato. Um gajo é romântico e depois arrisca-se... e a Maria nem deu valor. Um gajo tem uma responsabilidade do camandro, e ela ainda se chateia por eu responder à pressa.
Chegados ao parque de estacionamento de casa, a dúvida instalou-se: teria eu tempo de sair do carro, chegar a casa e ligar o rádio sem que o Benfica sofresse um golo? Eu sei. Tudo indicava que não devia arriscar, mas o jogo estava quase a acabar e resolvi ter fé na equipa e saí a correr do carro para casa. Liguei o rádio e... "... o Benfica está a conseguir manter este empate a grande custo..." estava tudo bem. Um alívio.
Dois minutos depois, ouve-se um grito estridente. Era a Maria:
"O GATO MORDEU-ME!"
Num momento de fraqueza, desliguei-me do jogo e perguntei-lhe:
"Estás bem? Estás a sangrar? Queres que te leve alguma cois..."
O resto já toda a gente sabe. O Kelvin aproveitou a desconcentração da equipa e marcou. É o que dá eu ser um romântico incurável.
Por isso, prometo que amanhã vou ver o jogo na sala de casa de porta fechada à chave, com o telemóvel desligado e uns phones para ouvir o relato.
Ah, e vou deixar um papel pendurado no frigorífico com a descrição do que tiver comido ao almoço e pendurar o abat-jour do candeeiro da mesinha de cabeceira no pescoço do gato.
Vai ser limpinho limpinho.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Somos todos feitos do mesmo


Outra das coisas que mais gosto no facebook (nota-se muito por este post e pelo anterior que tenho passado algum tempo no facebook? já tentei o twitter mas acho que as postadas lá até fazem eco, de tão vazio que aquilo é) é a possibilidade que nos dá de conhecer e conversar com imensas pessoas de outros lados do Mundo. E o que mais me admira sempre é o quão parecidos na maneira de ser todos nós somos.
Tenho falado com tipos em Espanha, Irlanda, Angola, Moçambique, Marrocos, entre outros, e as semelhanças são impressionantes. Oiço pessoas a dizer que fora do nosso país há diferenças culturais muito grandes mas, pela minha experiência de conversas no facebook vida, aquilo que posso concluir é que as pessoas destes países, por incrível que pareça, têm uma maneira de ver a vida muito parecida com a minha, idades muito parecidas com a minha, estudos muito parecidos com os meus e até algumas andaram nas mesmas escolas que eu mas o mais surpreendente (e disto não estava nada à espera) é que muitas delas nasceram no mesmo que sítio que eu. E todas falam português correcto.
Daqui só posso tirar uma de 4 conclusões possíveis: as pessoas de todo o Mundo nasceram todas na década de 80 e passaram a vir ao nosso país para aproveitar o excelente sistema de ensino e aprender a nossa língua e voltar ao país de origem; há alguém a conversar comigo a fazer-se passar por outras pessoas para me castigar daquilo que eu fazia no mIRC há anos; só ando a conversar com colegas meus que imigraram ou então sou só mesmo um idiota. Estou indeciso entre duas mas como sou um idiota não vos vou dizer quais. Bolas, acho que acabei de dizer uma delas...
Estava eu nesta dúvida existencial quando a آناهیتا میم.ب, (para quem não domina persa, isto lê-se Anahita) cuja imagem de perfil era um desenho de uma rapariga com um gato, meteu conversa comigo no facebook para me pedir um like na página dela. Fiz-lhe o like e pedi-lhe o mesmo. É impressionante o entendimento que se consegue ter com alguém escrevendo só o link da nossa página, um smile e um ponto de interrogação.
Perguntou-me, depois, em inglês, se eu era espanhol (caramba, devo ter feito o boneco demasiado amarelo moreno), respondi e perguntei-lhe de onde era. Disse-me que era do Irão e não perdi a hipótese de brilhar: "Ah, isso aí é mesmo como no filme Persepolis?" Para eles, esta pergunta deve ser o equivalente a "Portugal? Cristiano Ronaldo?" porque a rapariga respondeu logo com enfado, dizendo que o filme retrata o Irão de há 30 anos e que agora não tem nada a ver. Mesmo assim, ainda a medo, perguntei-lhe como era a vida lá, especialmente para as mulheres, e fiquei meio aparvalhado. Pronto, ok, fiquei completamente aparvalhado. Parece que a vida lá é bem boa. Há emprego para todos, recebem imensos emigrantes qualificados lá, o país está a modernizar-se, têm grandes obras em curso (vão ter metro em 3 cidades), as mulheres têm liberdade como os homens (ela está a tirar arquitectura e a mãe é engenheira mecânica e a cena do lenço na cabeça é opcional) e a maior parte gosta de lá viver. O único problema são os governantes idiotas e a mania das bombas nucleares, que fizeram com que os preços das coisas disparassem por causa dos embargos internacionais.
Não sei porquê, mas tirando as semelhanças óbvias: governantes idiotas, o embargo internacional e o metro em 3 cidades (Lisboa, Porto e sei que há noutra mas não me consigo lembrar qual...), fiquei com a ideia de que o Irão pode ser um país bastante atractivo.
E sim, eu estava certo: as pessoas de todo o Mundo são mesmo muito parecidas. :)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Bes Run Challeng3

O facebook é um sítio curioso: um gajo uma pessoa vai deambulando e nunca sabe bem o que vai encontrar. É certo que na maior parte das vezes não se descobre nada de jeito mas, às vezes, lá calha qualquer coisa interessante. Há dias, depois de me deparar com uma página fictícia (acho eu...) sobre astronautas suicidas que se matam com um saco de plástico na cabeça por cima do capacete, descobri a Bes Run Challeng3, uma corrida tri-partida, em Cascais, Sintra e Lisboa cujo prémio, para os melhores de entre as 3 corridas, é a participação na maratona de Nova Iorque.
Como gosto muito de correr, aquilo chamou-me a atenção e fui ver do que se tratava. Depois de ver, cheguei à conclusão que, afinal, não gosto assim tanto de correr e não me inscrevi. Aquilo, basicamente, é para gente doida. Mas acabou por me ficar a vontade de ir ver a de Cascais, a única que já aconteceu. É uma zona bonita e, de certeza, que me iria proporcionar umas bonecadas engraçadas.
E foi aí que me lembrei: "Olha, já que lá vou ver, aproveito e peço uma acreditação de imprensa à organização e assim posso desenhar em sítios onde não poderia entrar sem um cartão ao pescoço." Sim, é o que dá passar muito tempo no facebook - a realidade começa a confundir-se com a ficção.  A parte mais esquisita foi preencher o formulário: "Meio de Comunicação - www.viagensnomeucaderno.blogspot.com, Função - blogger/ilustrador...".
Por incrível que pareça, o meu pedido foi aceite. Não excluo que tenha sido por terem lá acreditações a sobrar ou por alguém na organização também andar a passar muito tempo no facebook, mas o que é certo é que fui muito bem tratado. E nem os meus "colegas" fotógrafos com máquinas de meio metro de objectiva me insultaram nem nada. Ok, talvez por terem pensado que um tipo com um caderno a desenhar e a tirar fotos com um telemóvel tivesse uma acreditação de imprensa por ser filho de alguém da organização mas isso não interessa nada.
O resultado pode ser visto na página do Bes Run Challeng3.
Ah, é verdade: a melhor mulher fez os 10 km em 33 minutos, com uma média de 18,2 km/h. E o vencedor masculino fez os mesmo quilómetros em 30 minutos - média de 20 km/h. Ambos do Sporting. Na cerimónia do pódio, estava um velhote ao pé de mim que quem o ouvisse gritar "Vivó Sporting! Limpámos tudo, caneco! O Sporting é grande!" ia jurar que tinham ganho o Campeonato. Ou o acesso aos lugares europeus, vá.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Não sei o que é o karma - parte 2

Aqui há tempos decidi aderir à moda das mochilas para computadores. O saco só com uma alça não é muito prático quando é preciso andar muito com o pc às costas e, para além disso, não cabia quase nada. Ainda por cima, quando tenho que sair com o computador, o meu lado feminino ataca em força e sinto uma vontade incontrolável de por mais e mais acessórios na mochila - é o rato, o carregador, a pen, a tablet para desenhar, o disco rígido, os lenços de papel para limpar o ecran, o caderno, o lápis... Já para não falar na carteira, qualquer coisa para comer e... as chaves.
Felizmente, saio poucas vezes com o pc e, por isso, a minha masculinidade ainda está intacta. Quer dizer, desta última vez que saí com a mochila que já não tenho bem a certeza disso.
Vinha eu, ao fim do dia, no autocarro para casa, à procura de umas bolachas num dos 27 bolsos da mochila quando, à procura de um fecho deparo com um bolso lateral que mal se via. Abro-o e, a brilhar lá dentro, o meu chaveiro antigo, aquele que eu julguei que tinha perdido, juntamente com a minha superioridade moral na minha relação conjugal o meu porta-minas.
Depois de limpar as lágrimas de emoção, decidi dedicar o resto da viagem de autocarro a imaginar como iria mostrar à Maria que não tinha perdido as chaves em vez de continuar a ouvir a conversa do banco de trás, de uma senhora ao telemóvel a aconselhar a amiga do lado de lá a não se deixar encornar enganar mais uma vez pelo namorado.
Tentei, tentei, tentei mas... não me consegui concentrar. A senhora atrás de mim queria mesmo que toda a gente no autocarro ouvisse os conselhos dela e, por isso, quando cheguei a casa tive que improvisar. Eu sabia que só tinha uma hipótese de mostrar à Maria que não perco as coisas como ela, mas tinha que me sair a frase certa no momento certo. E as frases que ecoavam na minha cabeça naquele momento, tais como "Ai comigo ele não fazia isso que eu mostrava-lhe logo quem é que mandava!" ou "Ai filha, livra-te desse gajo que ele não vale nada!" de pouco ou nada me serviam.
Confiei nos meus instintos de improviso e, quando cheguei a casa, abri a porta com as chaves antigas, que afinal não tinha perdido, cheguei ao pé da Maria e, sem dizer nada, poisei as chaves na mesa ao pé dela. Durante 3 segundos não me saía nada, até que ela resolveu desbloquear aquela situação:
- Olha, as tuas chaves antigas! Encontraste-as?
- Sim. Vês, não sou como tu. (eu sei, tinha obrigação de ter feito melhor, mas era isso ou "Ai comigo tu não fazes isso que eu mostro-te logo quem é que manda!"...)
- O quê? Não és o quê? Desculpa lá, tu foste mandar fazer cópias de chaves que afinal nem perdeste e ainda te estás a armar?
Estava a perder a discussão. Com a minha grande astúcia, percebi que estava num beco sem saída e só havia uma coisa que eu poderia dizer para sair dali por cima:
- O que é que se faz para o jantar?

terça-feira, 23 de abril de 2013

Não sei o que é o Karma, mas foi de certeza


Há coisa de um mês, a Maria perdeu a carteira dos documentos pessoais. Cartão do cidadão, carta de condução e cartões do banco - foi tudo à vida. Como sou um tipo muito compreensivo, não a chateei... nas primeiras 47 vezes que perdeu coisas. Desta vez, saltou-me mesmo a tampa. Não há dia em que ela não perca o telemóvel e, regra geral, está no fundo desse mundo secreto que é a mala dela.
Mas o pior ainda estava por vir. Sim, que mau não é perder os documentos, mau é ter que fazer novos. Dois dias depois, quando perdemos a esperança de que alguém os pudesse entregar numa esquadra (o polícia que nos registou a perda disse para esperarmos 3 dias antes de fazer novos porque às vezes aparece alguém honesto, mas a linguagem corporal dele dizia claramente para irmos o quanto antes à Loja do Cidadão...), a Maria foi pedir as segundas vias à Loja indicada pelo agente.
Quando, ao fim do dia, me contou o rombo que fez na nossa conta bancária, nem quis acreditar. 30€ para a carta de condução, 15€ para o cartão do cidadão, 12€ por cada um dos 2 cartões do banco que lá tinha e, não esquecer, 2,80€ do bilhete de ida e volta do metro. Contas feitas foram 71,80€ à custa da distracção da menina e mais uma vez a tampa a saltar-me com toda a força. Ralhar com a Maria não me trouxe os documentos dela de volta, mas deu-me uma superioridade moral, capaz de fazer com que não tivesse que lavar a loiça durante 2 meses.
O problema é que a felicidade nunca dura muito tempo e, ao fim de uma semana perdi o meu porta-chaves. Podia ter sido em qualquer altura, mas teve que ser a seguir à Maria perder a carteira dela. Quer dizer, aquilo, cá para mim, foi um roubo. Eu nunca perco nada, por isso, certamente foi um roubo. Ou um cão, vá. Também pode ter sido um gato. Isto com os animais nunca se sabe. Mas claro, deu direito a ouvir 22 vezes por dia "Afinal também perdes coisas!". Quando as pessoas não sabem distinguir entre perder uma coisa e ser assaltado por um animal feroz, porque de certeza que foi isso, é muito complicado.
Mas bem, decidi procurar (e por toda a gente a procurar) afincadamente as minhas chaves, a ver se recuperava a superioridade moral as chaves de que tanto gostava. E nada. O animal deve-as ter mesmo comido e depois já se sabe - os ácidos do estômago dos animais ferozes dão cabo de tudo.
Mesmo não aparecendo, decidi esperar mais uns dias antes de mandar fazer umas novas. Afinal de contas, tinha um crédito de 71,80€ amavelmente cedido pela Maria e, mesmo que já não servisse para não ter que lavar a loiça, ainda ía dando para ganhar umas discussões.
O problema foi que, numa saída com a Maria, pimba... perco o meu porta-minas (com o qual desenhei todos os desenhos deste blogue - ainda estou em estado de choque.). Quer dizer... A Maria chamou-lhe perder mas eu acho que não foi nada disso. E não estou a falar de um animal feroz. Cá para mim, daqui por uns dias vai estar no OLX um certo e determinado porta-minas azul da Rotring, com fita-cola à volta para não se desintegrar dar estilo, à venda por uns bons milhões. É certo e sabido. Mas tive que ouvir outra vez a ladaínha da Maria.
Desta vez, não fiz como fiz com as chaves e fui logo comprar outro. Entrar em casa só depois da Maria chegar dia após dia aguentava-se bem. Pior é não ter porta-minas para desenhar. Gastei 4,15€ mas, para ela, foi como se tivesse gasto, sei lá, uns 71,80€. Voltei a puxar dos galões e consegui ganhar mais uma discussão, mas eu já estava a sentir aquela sensação de frieza própria destes momentos. A mesma que o Sócrates teve quando o Mário Soares o chateou para chamar a troika, 2 dias antes de ele se ter convencido e a ter chamado mesmo. Nessa altura, o Sócrates também ganhou a discussão. Foi tal e qual.
No dia seguinte, infantilmente, cometi um erro fatal. Um tipo como eu, pouco habituado a ter razão, devia ter mais cuidado. Aproveitei uma ida às compras ao centro comercial com a Maria para ir à loja das chaves com ela pedir cópias das que tinha perdido. Há coisas que um homem deve fazer sozinho. É quase como ler a Playboy - se um gajo já sabe que vai levar nas orelhas, não convida a mulher para a ler com ele...
Chegados à loja, e meio a medo, comecei, cautelosamente, a perguntar os preços ao empregado:
- Quanto custa uma cópia desta chave pequena?
- 1,75€.
Tudo bem, pensei eu. E arrisquei mais um pouco:
- E destas grandes?
- 10€.
Fiz umas contas de cabeça e estava safo. 11,75€ era bem menos que 71,80€. As coisas estavam a correr bem. Pedi as duas mas estava escrito (talvez mesmo nas estrelas) que não me ía safar facilmente dali. A Maria vê um expositor de chaves para carros e pergunta-me se eu não queria pedir também uma cópia para a chave do carro, que também lá estava no chaveiro que perdi, quer dizer, que me comeram. Caramba, eu, que já tinha arriscado tanto, estava a ser completamente entalado e nem o empregado foi capaz de fingir que tinha a máquina estragada para me salvar a pele. Onde é que anda a solidariedade masculina quando precisamos dela?
Já tinha decidido que não iria fazer uma cópia (pelo menos não à frente da Maria) porque sabia que eram chaves caras mas deixei-me levar e perguntei o preço.
- Quanto é que fica fazer uma cópia para a chave do carro? Não é que eu queira. É só mesmo curiosidade, mais nada.
O empregado folheou o preçário vezes sem conta, e eu só pensava no crédito de 60,05€ que tinha (entre os 71,80€ dela e os meus 11,75€), com suores frios a percorrerem-me o corpo. Ao fim de muito folhear, olhou para mim, e disse-me:
- 56€.
Primeiro pensamento - Estou safo!
Segundo pensamento (depois de verificar o sorriso de vitória na cara da Maria) - Estou lixado... esqueci-me de somar a gaita do porta-minas...
É incrível como uma pessoa que não percebe nada de matemática, quando a coisa lhe interessa, percebe logo que 4,15€ + 1,75€ + 10€ + 56€ = 71,90€. Tinha sido tramado por 10 cêntimos. De nada me valeu o argumento de que os 56€ não podiam entrar na conta porque não tinha mandado fazer a chave do carro e na prática não tinha gasto tanto como ela. E pronto, a razão voltou a estar do lado a que já está habituada e tudo voltou ao normal.
Karma is a bitch. Oh yes it is...

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A minha primeira vez

Este sábado "dei" o meu primeiro workshop sobre Diários de Viagem, em Sintra. Foi um bonito dia de sol a passear e a retratar, num caderno, por escrito, em desenho, em pinturas e colagens as paisagens visitadas, não do ponto do vista visual mas sim emocional. Não faço ideia o que isto quer dizer, mas achei que ficava bonito, prontos.
De todo o workshop, a conclusão a que cheguei foi que os professores deveriam ser dos profissionais mais bem pagos de toda a sociedade. Digo isto porque ensinar é muito mais difícil do que parece e porque me dava jeito que a Maria fosse aumentada.
É que não basta saber sobre a matéria. É preciso saber passá-la sem dar "seca", fazer exercícios criativos mas com conteúdo, elogiar ou corrigir os trabalhos dos "alunos", ter cultura para falar abundantemente sobre o tema que se está a "ensinar" e sobre os milhares de derivações que o tema pode ter, respeitar o ritmo de cada "aluno" sem perder a noção do tempo e manter, dentro do possível, a plateia animada e motivada. Felizmente, neste último aspecto, o meu repertório de idiotices piadas nunca me deixa ficar mal.
No fundo, é como ter 23 bolas no ar e não deixar cair nenhuma, coisa que nem mesmo o Batatinha conseguia fazer na perfeição. Agora que penso nisso, acho que nem o Companhia, quanto mais...
O balanço foi muito positivo e a experiência é, sem dúvida, para repetir. Para as próximas edições até já tenho uma lista de pequenos ajustes a fazer. Um deles é chegar mais cedo à Fábrica de Queijadas da Sapa.
Dá cabo do ânimo a qualquer pessoa chegar lá e ver que os travesseiros estão esgotados e ainda ter que ouvir a empregada dizer: "Pois, é que são tão bons que vão num instante...".

terça-feira, 9 de abril de 2013

Não há nada como um bom brioche

Se há coisa que aprecio logo pela manhã, é um bom brioche. E estou certo que não devo ser o único. Uma pessoa acorda meio estremunhada e nada como um brioche quentinho e húmido para começar bem o dia - sim, eu gosto de os aquecer no microondas com doce de morango. Não, estou a gozar. Eu gosto é com doce de pêssego. Outra coisa que gosto bastante são aqueles broches de por na lapela, mas não sei porque é que me lembrei disso agora. Adiante.
Há dias, estava às compras e deparei com uma coisa que desconhecia - farinha preparada para brioches. Li o rótulo e, de imediato, peguei num pacote e pu-lo no carrinho. Dizia explicitamente que bastava juntar água e levar ao forno e, para isso, os meus dotes culinários eram mais do que suficientes. A pastelaria aqui da rua nem sempre tem brioches e, assim, ficava com o problema resolvido.
Encantado com a ideia, cheguei a casa e enfiei-me na cozinha, pronto a cozinhar uma iguaria. A receita dizia que para meio quilo de farinha, 275ml de água seriam suficientes. Como cá em casa não há medidor porque é daquelas coisas que nunca nos lembramos de comprar temos olhos de falcão, deitei meio pacote certinho (o pacote era de um quilo) numa taça. Depois peguei numa caneca de água e deitei uma cheia e voltei a encher apenas 37,5% e voltei a deitar na taça. Toda a gente sabe que as canecas com bonecos levam 200ml, mesmo que a olho pareçam todas diferentes.
Estranhamente, a mistura, cientificamente medida, ficou uma mistela que não me saía das mãos. Voltei a verificar as quantidades indicadas no rótulo e tinha visto bem. A receita do rótulo só podia estar errada. Não gosto nada da falta de rigor nos rótulos mas pronto, toda a gente falha.
Voltei a encher a caneca de água e fui pondo até conseguir que a mistura me saísse das mãos. Ainda precisei de pôr quase mais uma caneca cheia, mas consegui. Achei estranho que, em vez de sair das mãos por inteiro, tivesse saído escorrendo para a taça, num estado quase líquido, mas pronto. É o que dá quando os rótulos não explicam bem as receitas. Não custava nada dizer "... e misture até que fique macia sem se colar às mãos, escorrendo quase líquida pelos dedos abaixo até à taça." Às vezes parece que as receitas são telegramas, mas enfim.
Deixei a mistela a levedar duas horas, conforme dizia a receita e... nada. Como é possível que a receita erre em tudo? Acabei por ter que deixar a levedar toda a noite e só no dia seguinte consegui ver algum crescimento e a meti no forno. A receita dizia para ir acompanhando o forno para desligar quando estivesse pronto. Ainda fiquei na cozinha 10 minutos, mas fartei-me e fui para a sala. Ao fim de uma hora, estava a carapaça toda queimada e a massa crua por dentro. Inacreditável. Tinha posto o forno médio alto, conforme dizia a receita e o que tinha conseguido foi queimar a massa. Nem nesse ponto a receita estava correcta.
Agora percebo porque tanta gente diz que é complicado ter um brioche. O problema é que ninguém explica correctamente como lá chegar. Ainda tenho meio pacote guardado mas só o vou usar num dia em que me sinta mais inspirado e menos dependente de receitas.
Ou então, se calhar, esqueço o orgulho e peço à Maria.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

As aparências iludem, mas assim é que é giro

Aqui há tempos, numa volta que dei pela Serra da Lousã com um amigo (não, o jipe de senhora não é meu), acabámos a tomar café numa aldeia por lá perdida. Antes de entrarmos no café, o meu colega preveniu-me de que aquele estabelecimento tinha sido violentamente assaltado há pouco tempo e que os gandulos não tinham sido apanhados ainda. Registei a preocupação dele, passei a mão pela minha barba de 3 semanas e pelo meu cabelo despenteado de 6 meses e fiquei a pensar por breves segundos no bom que seria perceber se um gajo é ou não gatuno só de olhar para o seu aspecto e, assim, capturá-lo sem dificuldade. Seria, sem dúvida, uma sociedade muito mais segura.
Entrámos no café, dirigimo-nos ao balcão e, para além dos dois cafés, perguntei se seria possível deixar o meu telemóvel a carregar. A dona ficou a olhar para nós especada e, com a voz meio a tremer, respondeu-nos, olhando para os dois velhotes ao nosso lado no balcão, que deviam ser conhecidos dela:
"- Ah... pois, não vai dar para carregar o telemóvel. Eu estou mesmo de saída e vou ter que fechar o café. E vocês os dois também já iam sair, não é?"
Os velhotes acenaram que sim mas, como sou um verdadeiro expert na interpretação da linguagem corporal das pessoas, percebi de imediato o que se estava ali a passar. A senhora, sabendo que não teria tempo de carregar o meu telemóvel até ao fim, e não querendo ser responsável por lhe viciar a bateria, recusou o meu pedido e inventou uma desculpa. Assim, para deixar a senhora descansada quanto aos danos possíveis no meu tijolo, insisti:
"- Não se preocupe. Se puder deixar a carregar mesmo que sejam só 5 minutos eu agradecia. Precisava mesmo de fazer uma chamada e isso já seria o suficiente."
A senhora voltou a insistir mais duas vezes mas com uma técnica infalível consegui levar a minha avante. Sim, insisti três.
Como a dona e os outros dois velhotes não paravam de olhar para nós em silêncio enquanto bebíamos o nosso café, o meu colega resolveu meter conversa, a ver se o ambiente aliviava qualquer coisita:
"- Sabe quem é que eu sou? Sou filho do Zé que é cunhado da Maria e tem um primo e este (eu) é o filho da professora da primária."
Bem, aquilo foi como quando Moisés abriu o mar a meio. A senhora reconheceu o meu colega e começou logo a rir de alívio e admitiu que não tinha que fechar o café mas que andava cheia de medo de cada vez que entravam desconhecidos, por causa do assalto. Já um dos velhotes disse logo:
"- Eu logo vi que eram boas pessoas. Eu vi logo! VI LOGO! Eu vi logo! Eu vi logo. Eu logo vi. Vi pois. Eu logo vi!"
Já eu não fiquei nada bem com aquele desfecho. Aparentemente, a mulher achava-me com aspecto cara de gatuno e, pior do que isso, não parecia nada preocupada com a bateria do telemóvel. Sim senhor que cheguei lá num jipe de senhora enlameado, sim senhor que tenho pilosidade na cara para me proteger do frio, sim senhor que comprei um Nokia e sim senhor que devia levar um enxerto de pancada por causa disso, mas não era preciso ser tão insensível. Mas lá está, também eu me enganei a respeito da senhora. Depois de ela pedir desculpas por aquele embaraço, virou-se para mim e, quando tudo apontava para que desabafasse "- Coitada da professora. Não merecia...", exlamou:
"- Olhe, pode deixar o telemóvel a carregar o tempo que quiser!"
Até me vieram as lágrimas aos olhos. Ficámos mais 5 minutos, agradecemos e viemos embora. Saímos do café, que estava à meia-luz, em direcção ao sol que entrava pela porta, ao som de:
"- Eu logo vi. Eu até tinha dito a ele que eram boas pessoas. Eu logo vi! Vi sim senhor... Boas pessoas. Eu logo vi...."
Parecia uma cena de filme. Épico.