domingo, 28 de julho de 2013

Descobri o meu super-poder


Agora que terminou a época de casamentos 2012/2013, é altura de fazer o respectivo balanço. De entre as várias conclusões a que cheguei, a mais importante que tirei é que, quando vou a casamentos de amigos com a Maria acontece sempre uma coisa extraordinária. Ok, talvez duas, se contar com o facto de duas pessoas unirem as suas vidas para sempre, com um amor eterno que torna o mundo num sítio melhor e permite ter esperança na Humanidade.
A coisa extraordinária de que estou a falar é que, tanto eu como a Maria, nos transformamos numa espécie de super-heróis. É verdade. Acontece sem darmos conta, por isso acredito que os nossos super-poderes ainda devem estar a despontar, mas dá-me a ideia de que vão crescer no futuro. Até já escolhi os nossos nomes - a Maria vai ser simplesmente a Princesa e eu vou ser o Mordomo que Percebe de Moda Feminina Especialmente Aquela que a Maria Veste. Só pelos nomes dá logo para ver o poder que nos rodeia e, por aquilo que vejo nestes dias, não devemos ser os únicos com estes poderes.
Senão, vejam. Nestes dias, a Maria veste o seu melhor vestido, pinta as unhas, arranja o cabelo, põe maquilhagem, calça sapatos com um salto tão grande que fico sem perceber como é que não anda tombada para a frente e usa uma carteirinha onde só cabe o telemóvel (se for eu a fechar a dita,os óculos escuros também cabem). Passa o dia inteiro sem se conseguir mexer muito, a não ser, talvez com a língua, claro.
Já eu, levanto-me 3 horas antes da boda para... ir lavar o carro. Em mais nenhum dia eu o faria. Se tivesse uma reunião de trabalho com um tipo importante e levasse o carro, nunca o lavaria. Em vez disso, o mais certo seria desculpar-me com a sujidade exterior do carro dizendo que um camião de porcos se tinha despistado à minha frente a caminho da reunião e com a sujidade interior dizendo que a Maria tinha andado com o carro sem eu saber. Mas nos dias de casamento, não sei porquê, vou lavar o carro e nem me queixo à Maria de ter que tirar as 2 toneladas de lixo que ela lá deixa nem nada. Estranho.
Depois, chego a casa e faço a barba. Esta é tão estranha que nem vou comentar. A seguir visto um fato, com a gravata de cor igual à da Princesa. Este pormenor é importante. Tenho visto nos casamentos mais casais que aparentam ter os mesmos super-poderes que nós. Por isso é importante que cada Princesa distinga bem o seu Mordomo.
Finalmente, pego na mãozinha da Princesa e vamos para o carro. Oiço duas bocas acerca da falta de limpeza no tablier e na ausência de um perfumezinho, repondo 10 vezes afirmativamente à pergunta: "Estou bem? Vê lá? Estou mesmo bem? A sério, vê lá se estou bem.", ligo o carro e seguimos para a festa.
Já na festa, anoto os pedidos de canapés e bebidas para a Maria e vou buscar. Geralmente vou ao bar com outros Mordomos e aproveitamos para beber qualquer coisa. Não convém que a Maria saiba porque, já se sabe, quem conduz não bebe e a qualquer hora posso ter que ir a casa buscar os sapatinhos rasos que ela lá deixou esquecidos.
Outra das minhas ocupações, durante a comezaina, é responder sempre negativamente às perguntas "Estás a olhar para o decote daquela? Está mais bem vestida do que eu? Está, não está? Nota-se muito que fiz aqui uma nódoa no vestido com uma azeitona?" e afirmativamente a "Estou bem? Mesmo? Não olhaste para mim quando respondeste." Aqui até parece fácil, mas não aconselho a quem não tiver prática. Um simples pestanejar pode deitar tudo a perder. Ser Mordomo não é para meninos.
E a quem acha que isto não são super-poderes, eu pergunto que outro motivo me faria aguentar (quase) tanto tempo a dançar como a Maria, no bailarico da festa. Sim, porque quando saímos à noite num dia normal, o mais que consigo fazer é bater com o pé no chão e ficar a ver a Maria a dançar.
No final do dia, outra das obrigações do Mordomo é ceder o casaco à Princesa já que, por estranho que possa parecer, a "echarpe não aquece o suficiente". Esquisito. Aquilo tem um ar tão quentinho...
O dia termina com a viagem de regresso a casa, onde trago sempre o carro com suavidade, como um bom Mordomo o faz. A Princesa está cansada e precisa de descansar.

Por fim, deixo só aqui um conselho a quem só agora descobriu o seu super-poder: se, eventualmente, o vosso teor alcoólico for elevado e conduzirem aos arranques até casa passarem por cima de um buraco na estrada, olhem a vossa Maria nos olhos e digam com convicção:
"Este foi giro mas o nosso casamento foi (ou vai ser) muito mais bonito!"
Se for com convicção, podem ir em primeira até casa sem problema nenhum.
À confiança.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um calor selectivo


Um tipo passa o ano inteiro a dormir de pelota para conseguir aguentar os 5 cobertores e o edredão que a Maria precisa para se sentir "quentinha" de noite, a suar que nem um porco, sujeito a ser acusado de ainda fazer xixi na cama.
Um tipo tem que aguentar as viagens de carro, o ano todo, a conduzir de t-shirt (em tronco nu parece que é proibido) porque a chauffage, quer dizer, a sofagem (esqueço-me sempre que é uma palavra derivada de sofá) vai sempre no máximo, para S. Exa. Maria não ter frio, porque o calor, esse malandro, só aparece acima dos 30º.
Um tipo não pode, em altura nenhuma do ano, arrumar o aquecedor de casa, porque nunca se sabe quando é que a temperatura vai baixar e, nestas coisas, já se sabe, "uma pessoa gosta de se sentir confortável na sua própria casa, não achas?"

Um tipo tem que disfarçar a cara de palerma com que fica quando, ano após ano, no primeiro dia em que vai à praia e a água do mar está completamente gelada, a Maria entra pelo mar adentro como se estivesse numa sauna, a gritar "Está tão booooaaaa! Anda lá, não sejas totóóó!". E o pior é que um gajo não consegue reagir porque os pés acabaram de congelar ao tocar naquela mesma água e, andar para a frente, mesmo que se quisesse, torna-se impossível porque se deixou de sentir o que quer que exista dos tornozelos para baixo. E responder também é melhor não, já que o tom de voz nestas situações poderia levar alguém a pensar que alguma parte do meu corpo poderia ter sido, vamos lá, amputada.
Mas ainda não perdi a esperança de um dia conseguir perceber porque é que alguém com 15º de temperatura ambiente tem que vestir uma samarra, mas com 15º de temperatura no mar, um bikini chega perfeitamente. É que não consigo mesmo perceb... Oi. Espera lá. Será que os bikinis aquecem? Às tantas é isso. Tu queres ver... Tenho que experimentar isso. Só para perceber se é daí, claro.

(Eu acho piada aqueles tipos que dizem que vão ao banho ao mar porque adoram e é espectacular e mais não sei quê. Eu, pelo menos, não tenho problemas de admitir que vou ao banho por causa do meu estúpido orgulho masculino. Se a Maria vai, eu também tenho de ir. Se a Maria vai e se putos de 8 anos ficam a olhar para um gajo com aquele ar pensativo de quem está a tentar perceber que problema é que um gajo tem para não ir à água. Não fosse isso e ninguém me arrancava da toalha.)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O incómodo de andar de metro


Há dias, vinha eu no metro, quando se senta um cavalheiro francês ao meu lado. O senhor já era frequentador da 3a idade e trazia consigo o "Le Monde", que lhe atestava a nacionalidade e o grau superior de inteligência.
O culto senhor senta-se, abre o jornal e, nem dois segundos depois, olha para mim muito sério, passa a mão entre a perna dele e a minha (que se tinha encostado involuntariamente) várias vezes seguidas, e exlama, com um ar meio creepy:
- Regardez!
Completamente aparvalhado, fiquei ali uns segundos a tentar perceber o que é que se tinha passado e cheguei à conclusão que só podia ser uma de 3 coisas:
1) O meu odor corporal estava a incomodar o senhor e ele queria que eu me afastasse para o mais longe possível.
2) O homem achava que eu era panisgas e que me estava a fazer ao piso por ter a minha perna encostada à dele e quis mostrar que não estava interessado.
3) Aquilo tinha sido fruto de algum delírio meu, que, com tanto calor, imaginei coisas que não tinham acontecido.
Apesar de estar mais inclinado para a 3a hipótese, apertei os braços contra o corpo para fechar bem a sovaqueira e pus a mão com aliança de casado no colo. Entretanto percebi que estava a ser estúpido e parei com aquilo. Afinal de contas, tinha posto desodorizante e o casamento gay já é legal há uns tempos.
Tentei não pensar mais no assunto mas, quando o metro parou na estação seguinte, o homem levantou-se de imediato e foi para os lugares da frente, que tinham ficado vagos. Ao virar-se, mandou-me duas faíscas com os olhos que até fiquei a bater mal.
Se a coisa estava a ser surreal, ainda mais ficou quando, na paragem seguinte, entrou um senhor com os seus calções e sandálias com meias brancas e se sentou ao pé do homofóbico. Aquilo que eu já estava a ficar certo de ter sido imaginação voltou a repetir-se: a mesma mão a afastar a perna do homem e a mesma expressão creepy. A única diferença foi que, desta vez, a exclamação aziada foi: "Attention!" Uma coisa era certa - o homem tinha bastante vocabulário.
Ao olhar para o homem que ia ao lado dele, fiquei com a ideia de me estar a ver uns instantes atrás tal foi a expressão de aparvalhamento na cara dele. A única diferença foi que ele não deve ter tido tempo para acreditar que aquilo estava mesmo a acontecer porque, naquela altura, chegámos a uma estação onde entrou uma rebanhada de gente que, ao passar pelo superior francês, lhe tocava involuntariamente nos braços, nos pés e nas pernas fazendo a cabeça do homem rodar que nem um pião, tentando perceber quem se atrevia a perturbar a sua leitura. Foi o suficiente para o fazer sair na estação seguinte.

Agora a sério: eu compreendo bem o homem e sei bem o que ele estava a sofrer. Há dias, no mesmo metro, completamente cheio de gente e com um calor desgraçado, iam umas moçoilas bem constituídas de bikini em pé ao meu lado (certamente a caminho da praia), sempre a tocar-me por causa dos balanços da carruagem e aquilo também já me estava a deixar incomodado.
A minha sorte foi ainda não estar na 3a idade. Senão também teria saído na estação seguinte.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

É nestas alturas que gosto de ter pouco pêlo


Há pessoas que só lhes dão da comida mais cara.
Há pessoas que lhes passam creme hidratante.
Há pessoas que lhes limpam o rabo depois das necessidades.
Há pessoas que lhes dão banho todos os dias.
Há pessoas que os escovam dia sim dia não, mesmo que eles lhes risquem o cromado todo.
Há pessoas que os levam todas as semanas ao veterinário.
Há pessoas que os enchem de beijos. (Maria, como é que é possível?)

Eu abro a porta do frigorífico ao meu gato para ele se refrescar.

E acho que estamos conversados quanto a quem toma melhor conta do seu animal de estimação.

sábado, 6 de julho de 2013

Portas, nós cá nos arranjamos sem ti, a sério


Aqui há uns dias, no dia 2 de Julho para ser mais preciso, fui com uma das minhas irmãs à Loja do Cidadão. Tínhamos umas dúvidas sobre descontos para esclarecer no balcão das Finanças e, como o Gaspar se tinha demitido de véspera, não perdemos tempo e fomos lá. Se o tipo que aumentou os impostos sai (e toda a gente, alguns até no próprio Governo, dizia que era contra esse "enorme" aumento), os impostos descem, certo? Certinho direitinho. E antes que arranjassem outro fantoche da troika para lá porem, não havia um minuto a perder.
Para além do mais, mesmo que ainda não houvessem boas notícias, havia sempre a possibilidade de por o sono em dia. As pessoas que estão a atender são muito atenciosas - chegam ao ponto de trabalhar mais devagar silenciosamente só para não fazerem barulho e não acordarem quem está a repousar.
À chegada, tirámos a senha e tivemos logo ali uma boa notícia - só estavam 44 pessoas à nossa frente. A demissão do Gaspar devia ter passado despercebida a muita gente, mas ainda bem para nós. Aquilo ia passar num instante. Demos a volta ao pé do balcão e uma segunda boa notícia - em 7 mesas de atendimento, estavam 2 pessoas a atender. Espectacular. Ora bem, 44 pessoas para 2 mesas, dava 22 pessoas por mesa. Se cada uma demorasse 5 minutos, só tínhamos que esperar 110 minutos - 1h50m! Isto sem contar com as desistências, claro. O mais certo seria esperar só 1h40m. Era, claramente, o nosso dia de sorte.
Ficámos por ali uns minutos, só para analisar a taxa de desistências e medir o tempo médio de atendimento, e fomos beber um café. O segurança informou-nos que já não tinham máquinas automáticas mas que havia um café muito bom mesmo ao lado da loja. Ia eu para agradecer a amabilidade ao homem quando ele se senta e continua a preencher uma lista de nomes enorme. Já tinha reparado que muitos seguranças nas Lojas do Cidadão o faziam. Mas só desta vez é que se fez luz na minha cabeça - era uma lista de pessoas que ele já tinha mandado para o café do lado para ir lá entregar ao dono no fim do dia. A vida está difícil e todos temos que fazer por ela. Compreendo perfeitamente e se fosse eu, acho que até uma carta de menus do café lá teria comigo para mostrar às pessoas.
No café estava um ambiente muito animado. O dono olhou para mim e deve ter visto a senha da Loja do Cidadão que eu ainda trazia na mão, porque fez logo um sorrisinho. Fizemos o pedido e olhei em volta para ver a razão daquele ambiente. Na televisão ao canto, passava a confirmação de que estava a ser um dia de sorte daqueles que aparecem uma vez em cada 31 anos - o Portas tinha-se demitido e havia já comentadores que previam a queda do Governo ou, pelo menos, a demissão dos restantes ministros do CDS.
Voltámos para a Loja e pumbas, nova boa notícia - a malta deve ter saído para festejar e fomos atendidos apenas 1h35m depois de termos chegado. Pronto, ok. Deve ter sido só uma pessoa. As outras duas tinham desistido mesmo.
A senhora que nos atendeu foi muito simpática mas explicou-nos que teríamos que ir resolver o nosso problema à Segurança Social e não ali. Para mim, descontos são descontos e às vezes tenho alguma dificuldade em distinguir o ministério que me engole os rendimentos.
Àquela hora já não havia senhas para a Segurança Social mas não me preocupei. Com a saída do Portas, o mais certo seria o ministro Mota Soares, do CDS, também se demitir no dia seguinte. E depois, já se sabe. Se o tipo que aumentou as contribuições para a Segurança Social sai, os descontos diminuem, certo?
O problema é que, depois de uma semana em stress, à espera a qualquer momento da saída do CDS, sem saber que dia planear para ir à Loja do Cidadão, parece que afinal o CDS fica no Governo e o Portas também.
Este pessoal ainda não percebeu que os portugueses precisam de saber com o que contam para poderem planear a sua vida. E se nem o dia em que se tem que voltar à Loja do Cidadão se consegue prever, já pouco ou nada lá estarão a fazer e mais valia que fossem embora.
Só pedia era que fossem embora numa 3a feira. Às 2as, a Loja do Cidadão está que não se pode.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Agora, até de olhos fechados


Depois de algumas semanas a procurar um substituto em 2ª mão para o meu Nokia (que preferiu ir no tabuleiro do MacDonalds do que voltar comigo para casa) nos Olx e ebays desta vida, tive a sorte de um amigo meu me vender um que já não precisava. E digo sorte porque nesses sites só se encontram telemóveis quase ao preço deles em 1ª mão. A malta enche-os de valor afectivo e depois é o que dá.
Quando me chegou às mãos, tratei logo de o configurar à minha maneira - a data, as horas, as aplicações no ecrã, a foto da Maria no ambiente de trabalho, os toques até que, ao configurar a conta de email, não consegui eliminar o registo de utilizador do anterior dono que ainda lá estava.
Como toda a gente sabe, ler o livro de instruções de qualquer electrodoméstico reduz o tamanho do órgão sexual masculino, por isso, com medo de retaliações da Maria, só tive uma opção - experimentar todas as funções do telemóvel até que alguma libertasse a gaita do registo anterior da conta de mail.
Procurei, procurei, procurei até que encontrei a função "Repor desktop". Era aquilo. Só podia ser. A única dúvida era - repor o desktop como ele era quando? Como não consegui encontrar uma resposta, percebi logo que isso não podia ser importante. Tinha a certeza que aquilo me resolvia o problema do registo da conta de mail, e isso é que importava.
É verdade que o telemóvel me perguntou se queria mesmo avançar com aquilo porque depois de aceitar não haveria volta a dar, mas tanto preciosismo já me começava a irritar. Eu só queria resolver o problema do registo.
Cliquei para seguir em frente e.. resolvi o problema. Fiquei mesmo orgulhoso de mim. Demorei foi um bocadito a perceber que o tinha resolvido. É que Coreano não é o meu forte. Quer dizer, se era Coreano ou Chinês não sei. Uma coisa é certa - era uma língua qualquer inventada por um miúdo de 2 anos.
Mas lá que foi uma tarde de Domingo bem divertida a descobrir como o voltar a pôr em português, lá isso foi. Graças a isso, devo ser das poucas pessoas no mundo que sabem trabalhar com telemóveis de olhos fechados.

sábado, 15 de junho de 2013

Hoje vou guardar o que sinto só para mim


Hoje vou guardar tudo aquilo que sinto dentro de mim. Não vou despejar tudo o que me está a fazer contorcer de dores e me revolve o estômago. Por muito que me apeteça deitar a porcaria que sinto no meu íntimo cá para fora, hoje vou ser assim.
Mas espero que só tenha que ser assim da parte da manhã. É que tenho a gaita da sanita entupida.
Que mal é que eu fiz para merecer isto? (não precisam de responder, agora que pensei nisso, tenho uma ou outra vaga ideia do que possa ter sido)
À terceira panela de água a ferver, ponho as minhas esperanças todas na Coca-Cola Dia...
Vai ser um longo dia.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Descobri a solução para a Justiça andar mais depressa


Pela segunda vez na minha vida (terceira, se contar com aquela vez em que entrei só para perguntar se podia deixar o carro no parque de estacionamento em frente), fui a um Tribunal.
Desta vez, fui como testemunha num caso entre uma empresa onde trabalhei e outra, numa história que já vem de alguns anos atrás. O caso era bastante simples - a empresa onde trabalhei fez uns trabalhos para outra e não foi paga por isso, apesar da empresa que recebeu os trabalhos admitir que eles foram feitos e bem feitos.
A coisa parecia-me extraordinariamente simples, tão simples que eu nem conseguia perceber como era preciso um Juiz para a resolver. De qualquer das formas, para não facilitar, não só estudei todo o processo, como escolhi uma roupinha séria e até fiz a barba. Ah, e também tomei banho.
Antes do julgamento (só o nome já mete respeito), quando me encontrei com o advogado da empresa onde trabalhei, a primeira coisa que me explicou foi a forma como eu deveria falar e a postura que deveria adoptar - calmo, assertivo e confiante. Depois, olhou-me para a roupa e não disse nada. Na vez anterior em que tinha estado com ele, criticou-me por ter levado uma mochila. Não percebi muito bem o que é que isso tinha que ver com o apuramento da verdade, (ainda para mais vindo de alguém que usa um bibe dos pés à cabeça todo preto) mas deixei-o levar a bicicleta. Por fim, explicou-me as perguntas que me iria fazer e aquilo que eu poderia e deveria responder em cada uma, de forma a não criar dúvidas ao Juiz.
Depois dos conselhos, e como o caso me parecia tão simples e directo que até dava para ser o meu gato a depor já que havia documentos escritos que comprovavam tudo, não resisti e perguntei-lhe:
 - Se está provado que os trabalhos foram feitos, isto são favas contadas, ou não?
Ao que o homem me respondeu, para me deixar mais descansado:
 - Depende de si. Quando o advogado deles o questionar, não trema nas respostas. É que se isso acontecer, podem achar que temos fragilidades e depois o Juiz pode ficar na dúvida se temos razão ou não.
 - Pois mas, um julgamento é sempre uma situação stressante. Caramba, mas não há documentos que comprovam os factos?
E foi aí que o homem acabou com a conversa:
 - É pá, você não me está a ouvir com atenção. Não percebeu o que acabei de lhe explicar?

O que é certo é que o caso foi resolvido por acordo antes da audiência. Às tantas foi por eu estar a abanar muito a perna, quando estava sentado no corredor antes da audiência e o homem não quis arriscar e ficou mais descansado com um acordo.
Cá para mim, se houvesse mais testemunhas nervosas como eu, havia mais acordos e a Justiça não era o que se vê. A malta vai para os julgamentos cheia de confiança e depois o Juiz não sabe em quem acreditar.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A maneira mais cruel de um gajo ver que está a ficar velho


Este fim de semana fui a uma festa de aniversário e vim de lá a sentir-me mais velho e acabado que nunca.
Não foi por ser a festa do 1º aniversário do 1º filho da malta da faculdade nem por o miúdo olhar para mim como se eu fosse um serial killer e se agarrasse ao pai com quantas forças tinha, com aquele ar de quem deseja secretamente que o pai desse um enxerto de pancada ao gadelhudo que não parava de lhe querer pegar ao colo.
Também não foi por 75% dos meus colegas da faculdade que ainda não foram pais estarem de esperanças (ou a pensar tratar do assunto) fazendo com que toda a conversa girasse à volta desse facto, levando-me a saber coisas tão importantes como ser preciso tomar ácido fólico para engravidar (ainda não descobri se é só para as mulheres ou se é para os homens também) ou que amamentar dói (neste caso, apesar de ninguém ter dito, acho que só dói mesmo às mulheres).
E muito menos foi por a malta ter oferecido um triciclo da Chicco ao aniversariante, quando há uns anos teríamos certamente comprado um da Chiko ou mesmo daquela outra marca, a Xico.
Foi por uma coisa bem mais cruel, que mostra que o impiedoso ciclo da vida não perdoa ninguém.
A festinha teve direito a almoço no pátio da casa, para aproveitar o bonito dia de sol que estava. Antes do almoço, para acompanhar a conversa, bebi um copo de licor, ao almoço um copo de vinho e, a seguir à sobremesa e ao café, o tradicional digestivo. Tudo normal. O problema é que o meu fígado está farto de me aturar e mandou o cérebro resolver o assunto. Resultado - uma dor de cabeça como há muito não tinha.
E de nada valeu dizer à Maria que tinha sido por causa do sol na cabeça durante toda a tarde. A última coisa de que me lembro nesse dia foi de chegar a casa, aterrar no sofá da sala, tapar-me com um cobertor e ouvir a Maria:
"Já não tens idade para beber assim, caneco. Já devias saber."

PS: Ainda tenho uma secreta esperança que tenha sido por falta de treino. Tenho saído pouco. É por isso, de certeza. Tem que ser. Para a semana tenho um casamento e vou tirar este assunto a limpo. Assim a Maria deixe.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Post de autoajuda


Há dias em que tudo parece mau:
O telemóvel vai no tabuleiro do MacDonalds e temos que voltar ao velhinho tijolo.
O computador da Maria cai ao chão e o ecran passa a funcionar só em metade do tamanho.
O trabalho corre mal e dá a ideia de que se vai viver para debaixo da ponte porque mais ninguém vai querer o nosso trabalho.
O carro arranja uma avaria nova super irritante em que parece que está um piriquito debaixo do capot.
Jesus mostra vontade de passar a usar vestes azuis e brancas.
O gato passa por frestas de janelas e empoleira-se na guarda metálica (com 3cm de largura) da janela da cozinha, no 3º andar.

Mas não. Não é tudo mau, porque é nesses dias que se:
Volta a jogar o Snake, ideal para viagens de autocarro e metro.
Começa a treinar a lidar com um ecran de pc pequeno, para quando se comprar um tablet a adaptação ser mais fácil.
Apercebe que até conseguimos fazer coisas novas e diferentes no trabalho.
Descobre que pondo o auto-rádio mais alto a avaria do carro desaparece.
Deseja que o Jesus continue a ser o mesmo profissional com os mesmos resultados.
Vê que o gato não tem tendências suicidas e que afinal não estamos condenados a ter sempre as janelas fechadas.

Nota: este desenho foi feito mais tarde, após a acrobacia do menino, recorrendo à imaginação, depois de levar quase com um ataque cardíaco em cima. Estou a falar a sério. Não façam queixa de mim a nenhuma associação de defensores dos animais. É que nem uma foto tirei, caneco.