quarta-feira, 27 de março de 2013

Quando o corpo começa a falhar nos grandes momentos...

Enquanto somos novos, achamos que o corpo vai sempre responder às ordens da cabeça. Achamos que nunca vamos falhar nos momentos importantes e que o nosso fisico nunca nos vai deixar ficar mal. Envelhecer tem-me ensinado que isso não é bem assim. O corpo falha e, por vezes, nos momentos em que menos queremos que falhe.
Sabem aqueles momentos importantes em que queremos muito e temos que agir mas o corpo não responde? Aqueles momentos em que a nossa cabeça ordena uma resposta do corpo aos estímulos exteriores mas do corpo nem sinal? Aqueles momentos em que decepcionamos quem está connosco à espera de uma reacção enérgica a algo que está prestes a acontecer e que inexplicavelmente nada acontece, e nem sabemos com que cara ficar?
Sim, aconteceu-me no passado Domingo e ainda só tenho 31 anos...Juro que foi a primeira vez. Nunca me tinha acontecido.
O Relvas passou a 10 metros de mim, em Belém, a fazer o seu jogging matinal com a namoradona e 3 gorilas atrás e não me saiu nada. Nem um "Vai estudar, Relvas!", nem um "Vai levar tomar no cu!", nem uma Grândolada, nada... Não me saiu nada. Nem um simples, mas apropriado, "Vai pró car*****!" Nada. Nada de nada.
Mas eu acho que foi do stress. Só pode ter sido. Nem tenho razão para achar outra coisa. Na próxima vez, com mais calma, eu sei que vou voltar a conseguir. E se a Maria não ficar a olhar especada para mim à espera de uma reacção, acho que também me vai ajudar.
Quer dizer, ajudar a ter uma reacção quando voltar a ver o Relvas. É só disso que estou a falar. Do Relvas. Estou a falar do Relvas. Ai o caneco.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Sardinhas não se discutem

Este ano cumpriu-se mais uma vez a tradição do Concurso das Sardinhas das Festas de Lisboa, com todas as fases que fazem parte deste concurso a serem escrupulosamente cumpridas. Assim é que é bonito ver as tradições serem respeitadas. 
A primeira fase do concurso é sempre a imaginação da sardinha a executar pelos concorrentes. Depois vem o rascunho do que se pretende fazer, a execução propriamente dita da sardinha na técnica escolhida, o envio das propostas para o júri, a apresentação dos resultados, o insulto forte e feio do júri pelos concorrentes que perderam e público em geral e, por fim, a exibição, no facebook e blogues dos concorrentes, das suas propostas de sardinhas, com um quê de injustiça à mistura, nalguns dos casos. Como se pode ver, já cheguei à última fase. 
Este ano, por aquilo que me pareceu, a indignação foi ainda maior. Centenas de comentários (alguns muito inflamados) a criticar o júri e as sardinhas escolhidas com o argumento de que "de certeza que em 6446 havia propostas muito melhores".
Nesses comentários, só vejo uma coisa de errado: faltam, quase sempre três palavras antes do insulto - a primeira é na, a segunda é minha e a terceira é opinião. É que não há mesmo volta a dar - todas as pessoas têm a sua opinião, tal e qual como as pessoas que compõem o júri. Todos os concorrentes o sabem à partida e, se concorrem, sujeitam-se a isso. Para além do mais, um trabalho artístico é sempre subjectivo.  Se o não fosse, não teria qualquer piada. Há pessoas que não vêem piada nenhuma numa pedra e outras que se emocionam quando olham para ela. E é por isso que muitas delas acabam mesmo pedradas.
Duvido muito que as minhas escolhas, caso fosse jurado, recaíssem sobre as dez sardinhas vencedoras. Mas também tenho quase a certeza de que, se uma das minhas ganhasse, eu não escaparia às críticas de meio mundo.
Caramba, se nem a Maria conseguiu ver ali um pastel de nata e duas colheres, acho que acabei por me safar de boa.

terça-feira, 19 de março de 2013

Dois homens às compras


Há 8 anos fiz a minha primeira tentativa de ter um blogue. Chamei-lhe SochochDiluidos (sim, o SonhosDiluidos já estava escolhido...) e atirei-me a ele cheio de vontade. Acabei por publicar menos que aquilo que tinha pensado porque dava uma trabalheira desgraçada e porque, sem o facebook de hoje em dia, era muito mais difícil criar interactividade com outras pessoas e ter alguma audiência.
Hoje voltei a lembrar-me do blogue por causa da última postada que lá escrevi em 2009 e que, ainda que com algumas diferenças, veio marcar o meu estilo de escrita. Era sobre a odisseia de dois tipos às compras - o meu pai e eu. Naquela altura, eu ainda era um tipo solteiro e aquela experiência fez-me alguma confusão. Agora, quando a reli, parecia o relato normal das minhas idas ao supermercado. Nem consegui perceber o que se passou ali de estranho.
Mas bem, como hoje é um dia especial, cá fica a lembrança do terceiro filho de 4 belos espécimes de ser humano, de um dia bem passado com o seu pai:

Fui às compras com o meu pai. Para evitar males maiores, a minha mãe teve o cuidado de fazer uma lista de compras - quando dois homens vão às compras sozinhos  isso é o mínimo que uma mulher pode fazer. Para bem ser a lista deveria ter a marca de cada produto e a prateleira do supermercado onde está - só assim a pressão psicológica de chegar a casa com as compras certas desapareceria mas os telemóveis também existem para alguma coisa.
À partida o desafio parecia simples. A lista tinha coisas básicas e tínhamos ali uma boa hipótese de causar boa impressão. Começámos bem: o açúcar, o chouriço (era pequeno - trouxemos dois), o leite, os iogurtes. As dificuldades começaram nas maçãs. Quando chegámos à frutaria a pressão sentiu-se no ar. O meu pai virou-se para mim e desabafou: 
"A mãe disse-me que só penso em mim quando compro maçãs porque as que levo são muito maduras." 
Por dois segundos ficámos os dois calados. Ali estava a evidência de que não seria desta vez que causaríamos boa impressão. Respondi-lhe:
"Olha estas, parecem-me bem."
"Hum, estas parecem-me melhores. São mais variadas."
"Ó pai, essas têm mau aspecto. Olha estas."
"Quanto é que essas custam?"
"Não sei, nunca nada tem o preço no sítio."
"Oh, escolhe lá mas é."
"Ó pai, eu não quero ter essa responsabilidade..."
"Oh, vamos dar uma volta e já cá voltamos..."
Meu Deus, a pressão exercida por uma mulher pode ser tal que até um homem como o meu pai que trabalha na Direcção Regional de Agricultura há 20 anos fica sem saber escolher maçãs...
Mas o terror ainda não tinha acabado. Faltavam os feijões. A lista indicava precisamente que deveriam ser feijões vermelhos em lata. Nada mais, nada menos. Mas estava escrito que não iríamos fazer boa figura. O supermercado só tinha feijões vermelhos em frasco. De resto tinha feijões brancos em lata e feijões pretos em lata. Espantado pela hesitação do meu pai, perguntei:
"Não há em lata levamos em frasco, certo?"
Ele olhou para mim lentamente e disse:
"A mãe pôs aqui que é em lata..."
"Mas ó pai, qual é a palavra mais importante: é lata ou vermelho?"
"Não sei..."
Qualquer semelhança entre esta conversa e uma conversa de dois miúdos de cinco anos é pura coincidência. É incrível a pouquíssima capacidade de tomar decisões que dois homens conseguem ter quando paira sobre eles a sombra de uma mulher.
Prevendo o impasse sugeri ao meu pai que ligasse à minha mãe. A resposta não tardou e não era nenhuma das que tínhamos pensado: deveríamos levar duas latas de feijão branco e dois frascos de feijão vermelho. As duas latas de feijão preto que o meu pai tinha posto no carro antes do telefonema voltaram para a prateleira num ápice.
Voltámos para casa meia hora depois. O meu pai com um ar meio triunfante meio amedrontado.
E eu a pensar: "Daqui a cinco meses estou casado."

Feliz dia, progenitor! (É como a malta lá de casa o trata.)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Um mês de gato cá em casa - o primeiro balanço


Parece que ainda ontem eu prometia à Maria que iria, finalmente, passar a ser um tipo decente se ela desistisse da ideia e já passou mais de um mês desde que temos um pequeno diabo da Tasmânia cá em casa. Era compreensível que uma promessa destas por cumprir há 10 anos acabasse por perder a validade.
Uma das coisas que mais me atrofiava, nisto de ter pequenos monstrinhos, era o conceito. Para mim, que nunca tinha tido animais em casa (tive uma lagartixa que apanhei no quintal dos meus pais, mas como só durou 3 semanas, acho que não conta), passar a ter um, com o qual a comunicação seria algo difícil, a andar por cima de tudo e mais alguma coisa, a partir umas coisas, a ter necessidades fisiológicas, fome, sede, a largar algum pêlo e a morder os donos quando a coisa não lhe cheirasse bem, parecia-me um daqueles trabalhos perfeitamente escusados.
Hoje, depois de algum tempo, percebi que ter um animal por aqui, com o qual a comunicação é quase impossível, que corre por cima de tudo e tudo, a partir e a roer montes de coisas, que tem necessidades fisiológicas que cheiram desde a casa de banho até à sala, fome e sede de um jeito que a comida e a água fazem pinturas impressionistas (são as que até fazem impressão) no chão que ele depois espalha pela casa com pegadas, a encher a casa de pêlo e a morder (às vezes forte e feio) quando alguma coisa o chateia ou não, pode, até, ser uma coisa bastante engraçada.
É um facto que obriga a repensar a decoração da casa. Mas se ele agora cá vive, também ganhou direito à sua opinião. Tínhamos umas jarras que ele não apreciava muito, uns ramos de flores secas que deviam ser uma delícia e um quadro do Klimt - O beijo, na sala (pintado pela ilustre pintora a quem chamo mãe) que tiveram que mudar de sítio: as jarras para o caixote do lixo (em cacos tornava-se muito difícil pôr flores lá dentro), os ramos para dentro de um armário e o quadro teve que ser pendurado quase ao pé do tecto (os pintores impressionistas não devem apreciar muito os realistas, como o Klimt a minha mãe, e, como tal, o gato passava a vida a tentar arranhá-lo - perfeitamente compreensível).
Mas também é verdade que acaba por dar outra animação à casa. Se há coisa que a casa agora tem é animação. Sossego só a partir das 20h00, mais coisa menos coisa. Enrosca-se no sofá a dormir e arma-se todo em fofinho.
E é aí que, eu e a Maria, ficamos imenso tempo a olhar para ele e nos convencemos que não o podemos atirar pela janela abaixo deixamos embevecer pelo Tobiazinho, o nosso gatinho queridinho.
"Ahhh, TOBIAAAS!"
Ups, tenho que ir.

terça-feira, 12 de março de 2013

Onde está a malta da "Grândola" quando precisamos deles?


A convite da minha irmã e de uma amiga, fui a uma conferência sobre "NetWork Marketing". A conferência era num dos mais badalados hotéis de Lisboa e o orador era um tipo conhecido. Já o tema sugeria qualquer coisa como negócios em trabalho de rede e isso interessava-me.
Dez minutos antes da hora lá estava eu à porta do hotel. Perguntei à recepcionista onde ia ser a conferência e, qual não é o meu espanto quando, à porta da sala que me tinha sido indicada, estavam umas 10 pessoas, se tanto, e já todas se conheciam. Achei esquisito mas não liguei. Talvez ainda fosse cedo.
Encostei-me a um canto à espera mas, ao fim de 15 minutos, ouvi as pessoas que estavam ao meu lado a comentarem que a conferência só iria começar meia hora depois do que estava marcado porque havia um problema qualquer com o data show. "Num hotel 4 estrelas?" pensei eu. Estranho. Mas acontece a todos, certo?
Escolhi um dos sofás da sala de espera e pus-me a ler o livro que, em boa hora, decidi levar. Ainda estava a habituar-me à suavidade do sofazinho de pele quando me liga a minha irmã a dizer que estava meia hora atrasada. Com todo o atraso da conferência, quem me dera a mim também estar.
Entretanto, as pessoas começaram a entrar na sala. Deixei que toda a gente entrasse e, por fim, sem sinal da minha irmã à vista, entrei também. Do outro lado da porta, estava um tipo numa secretária a pedir os nomes aos participantes. Tinha um caderno pautado de capas pretas, daqueles da escola, todo amarrotado e escrevia o nome das pessoas à mão. Nem sequer tinha uma lista das pessoas que se tinham inscrito. Disse-lhe o meu nome, e o tipo pergunta-me:
"Já é distribuidor?"
Wow. Pára tudo. O data show, o atraso, o caderno amarrotado ainda aguento mas... se já sou distribuidor? Distribuidor de quê? Então eu venho a uma conferência num hotel 4 estrelas, com um tipo conhecido para o ouvir falar sobre negócios e perguntam-me se sou distribuidor? Aquilo começava a tresandar.
Respondi-lhe: "Desculpe, não é aqui a conferência sobre Marketing?"
O tipo faz um sorriso de parvo e responde-me "É é! Pode-se sentar!"
Olho para o palco e vejo um placard publicitário a uma empresa qualquer com umas garrafas que pareciam ser de vinho e tive a nítida sensação de alguém me ter enfiado alguma coisa pelo anûs acima, se é que me faço entender.
Sentei-me o mais atrás possível e como ainda andavam às voltas para instalar o data show (é preciso ligar dois cabos, não é assim tão fácil...), voltei a tirar o livro que levei. O problema é que, com a música de discoteca que puseram a passar aos berros, nem sequer me conseguia ouvir a pensar. Até que, ao fim de 15 minutos daquilo, com 20 pessoas na sala, no máximo, começa a conferência.
O tipo conhecido começa a explicar a forma como as pessoas evoluem na vida profissional e no conforto financeiro. Tinha o dom da palavra e estava a gostar de o ouvir. Até me passou pela cabeça que o homem fosse tão bom a falar que aquele placard publicitário que estava atrás dele fosse de uma empresa que lhe patrocinava as conferências e que os "distribuidores" fossem funcionários dessa empresa, cujo chefe os tinha mandado assistir aquela palestra. Sim, sou um ingénuo do caraças.
Mas não levei mais de 5 minutos a perceber. O homem estava num raciocínio bem definido quando, sem que nada o fizesse prever, atira para o ar que "O melhor investimento possível é nesta empresa (e aponta para o placard) onde cada um de vocês só tem que arranjar 2 nabos distribuidores e irão ganhar dinheiro, muito dinheiro com o trabalho deles. Nem é com o vosso! É com o deles!"
A vontade que tive foi levantar-me e sair. Aquilo não era uma conferência, era um engodo. Ao fim ao cabo, aquele paleio todo era para o tipo arranjar mais uns palermas para pagarem um balúrdio para serem revendedores de umas bebidas que ninguém conhece, mas que supostamente são muito boas e, se depois nós também conseguíssemos enganar uns quantos nabos, também iríamos ter montes de dinheiro. "E é mesmo fácil!"
Há uns anos já tinha ido, por curiosidade, a uma palestra daqueles de uma empresa que vende batidos. Pelo menos dessa vez eu sabia ao que ia. Desta vez, só o nome da empresa era diferente, porque o resto era todo igual. A facilidade em ganhar rios de dinheiro, o baixíssimo investimento, a felicidade estampada na cara de todas as pessoas (eu imagino as dores nos maxilares que aquelas pessoas devem ter por serem tão felizes...), altos carros à porta do hotel todos estampados com os logótipos  viagens à volta do mundo e um nível de argumentação tão baixo que nem dava para acreditar. Parecia que o homem nem era o mesmo quando começou a falar daquele esquema. "Se o Bill Gates acha que isto é um grande negócio, eu, pelo menos, vou investigar. Vocês, não sei. Ninguém é obrigado a ganhar montes de dinheiro!" Hã? O Bill Gates também vende bebidas energéticas? Ah, tá bem. Então também quero entrar. É que nem preciso de saber mais nada.
Foi nesta altura que a minha irmã e a colega entraram na sala e eu tive a secreta esperança que elas ficassem no fundo da sala a cantar a "Grândola" para o tipo se calar e irmos todos embora. Em vez disso, elas sentaram-se e, talvez entusiasmado com o aumento da audiência, o tipo resolve chamar um colaborador ao palco para contar a sua experiência. Parecia a Igreja do Reino de Deus. "Estava desempregado e a minha mulher também, tinha perdido a minha casa e tinham-me cortado a água e a luz, e tinha um filho para alimentar. Um amigo perguntou-me como é que eu estava, 2 semanas antes de eu emigrar para Angola, já desesperado, e a acabar de ter sido diagnosticado com diabetes. Disse-me que tinha um projecto que me iria mudar a vida, se eu estivesse interessado. E mudou! E eu só tenho a 4a classe e nem sequer percebo nada disto! Ah, e com este produto nem preciso de medicamentos." Tive vontade de lhe dar os meus parabéns e ir  embora, mas foi aí que o tipo se esticou um bocadito nos comentários: "Aqui o mais importante é o produto e não há nenhum melhor do que este. Sem o produto, isto seria só um esquema financeiro!" Ups... No fim da conferência o tipo saiu logo a correr, mas eu acho que alguém vai levar um tau tau, aí vai, vai.
É que a questão é mesmo essa - o "produto" não é preciso para nada. É só uma desculpa para as pessoas entrarem. Porque estes esquemas (que é o que são) funcionam perfeitamente sem produtos. Se os "distribuidores" pagarem uma determinada quantia para entrar na pirâmide e arranjarem outros para ficarem abaixo deles, aquilo funciona à mesma. Existem pirâmides clandestinas destas, sem produtos nenhuns e com rentabilidades parecidas. E todas se alimentam da mesma coisa: dos palermas do fundo da cadeia.
Aquilo até pode ser tudo perfeitamente legal, dar rios de dinheiro e o produto ser a última maravilha, mas quando olham para mim como se tivesse um € estampado na cara, não sei porquê, não aprecio muito.
Mas isso sou eu, que tenho gosto em ser pobretana. Por isso e porque ando chateado com o Bill Gates. O meu Windows diz-me "Foi encontrado um problema no Windows. O Explorer vai reiniciar." de 15 em 15 minutos e se não tiver o trabalho guardado, perco tudo o que tiver feito.
É o que dá as pessoas andarem a vender bebidas energéticas - ganham balúrdios e depois desleixam-se nas suas empresas. Eu bem sabia que isto não era grande negócio.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Encurralado pelo David Fonseca


Quando quero muito ver um filme, vejo sempre o trailer antes. Se for um livro, leio sempre a contra-capa, ou mesmo o último capítulo. Geralmente, se o final for tipicamente feliz, também é feliz para o dinheiro no meu bolso, que lá fica a fazer-me companhia. Se há coisa que anda pela hora da morte é a Cultura, por isso é preciso ser selectivo. O último livro que comprei, li-o praticamente todo na livraria antes de o trazer. (Só me apercebi disso quando comecei a contar a história do livro à Maria e estava ela a descascar batatas e só acabei quando eu estava a pôr a loiça na máquina - quem cozinha ganha certos direitos lá em casa). Ainda pensei em não o trazer, mas caramba, tinha bonecos e dos bons, e eu sou um tipo sensível aos bonecos.
Com os concertos, a lógica é a mesma. Se houver um showcase de uma banda que queira ver em concerto, ou se for do David Fonseca, estou lá batido. O último que fui ver, em Novembro, foi do... ai, como é que ele se chama..., aquele tipo que é de Leiria... aquele que só usa AllStars... Ah, já sei: do David Fonseca.
Apesar de até gostar do homem, e dos concertos que ele dá, fui ao dito showcase a pedido da Maria. Ela precisa de tomar uma dose diária da música do David para andar estável e, como era um caso de saúde pública, lá fui eu com ela.
O mini-concerto servia para apresentar o concerto que o David ia dar nos Coliseus. Fiz figas para que a Maria não gostasse muito das músicas novas, e lá fomos nós, só duas horas antes de começar, para reservar lugar sentado. As miúdas de 14 anos das fila da frente (ficámos na 3a fila) ainda olharam para mim de lado com aquele olhar de "O que é que este tipo está aqui a fazer com uma miúda de 13 anos? Deve ser algum tarado..." Há pessoas que se devem interrogar como seriam os seus cônjuges (sempre quis utilizar esta palavra) na adolescência. Eu só preciso de levar a minha a um concerto do tipo que era dos Silence4.
O espectáculo correu bem para o David Fonseca. A Maria gostou das músicas novas e, como seria de esperar, ficou ansiosa pelo concerto no Coliseu de Lisboa.
Ao longo dos meses, fui-a convencendo de que o concerto não iria valer a pena, que era melhor ir ver os Mumford & Sons (uma banda do outro mundo) mas, sem que nada o fizesse prever, fui atraiçoado pelo David. Há coisas que uma pessoa não espera nem dos piores inimigos, quanto mais de um tipo que parece ser decente.
No dia 14 de Fevereiro, dia dos namorados, chego a casa e sou colocado perante a maior chicotada nas costas que alguém pode sofrer.
"Olha, se comprarmos hoje os bilhetes para o concerto no Coliseu, temos 50% de desconto!"
Um rápido olhar para a rosa que trazia na mão e a sensação de que ela não me iria safar de maneira nenhuma daquilo. Tinha sido encurralado. O David voltava a passar-me a perna.
"Sim... pronto... ah... quer dizer... não tens nenhuma amiga que possa ir contigo... pois... compra, então."
O resto já se sabe. O concerto da semana passada foi espectacular. Para ela. E para mim, vá.
Ah, mas a flor que levei ganhou logo outra beleza.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Um Povo à procura de verdadeiros líderes

Apesar de ter imensa vontade ir à manifestação de sábado, onde vários jovens lutaram por um posto de trabalho digno, onde enfrentaram o poder estabelecido, onde se mostraram capazes de enfrentar novos desafios e onde se gritaram palavras de ordem, não pude ir. Já há bastante tempo que ando com vontade de ir ver um jogo do Sporting, mas a coisa nunca me calha a jeito. E caramba, ver aquela equipa contra o FCP era uma boa oportunidade.
Mas bem, acabei por conseguir ir à outra manifestação. Aquela que, para uns, foi um aglomerado de gente sem norte, de ideias anarquistas, sem rumo definido e, para outros, como para mim que lá estive e a senti, foi um grito de revolta. Para mim, que sou mais novo que o 25 de Abril, nunca a Grândola fez tanto sentido como ali. Nem mesmo no protesto ao Relvas.
Quem se manifesta não tem que saber as melhores medidas macro-económicas para sair da crise, nem se a conjuntura europeia o permite, nem se os mercados acordaram bem-dispostos ou o raio que o parta. Se as pessoas soubessem, nunca votariam em políticos cuja única especialização é saber mentir à descarada. Nunca, como agora, os políticos faltaram tanto à verdade às pessoas, e ainda mais a quem os elegeu, daí que a treta de que o governo é legítimo porque foi eleito não pega. Perguntem lá ao Godinho Lopes do que é que isso lhe serviu.
A apresentação de propostas alternativas, sendo o governo incompetente, deveria vir da oposição mas, com propostas tão genéricas como "Acabar com a austeridade." e "Criar uma política de crescimento.", já se percebeu que o PS só está mesmo à espera que o poder lhe caia no colo, entregue pelos manifestantes que no sábado saíram à rua. O que raio é "acabar com a austeridade"? É diminuir os impostos? É diminuir as taxas moderadoras? E a política de crescimento? É criar incentivos à criação de empresas, mas daqueles que chegam mesmo a quem quer abrir uma, ou é só mais um conjunto de papelada que nunca vai dar a lado nenhum e mais parece aqueles concursos das Selecções do Reader's Digest, em que a seguir a um formulário vem outro a dizer que estamos mais perto? (e infelizmente aqui sei bem do que falo...) Ninguém sabe. Nem mesmo quem propõe.
E é por isso que, ao contrário do que os comentadores partidários políticos comentam, acho que estas manifestações até têm mais peso que aquelas que são organizadas pelas centrais partidárias sindicais que, apesar de serem bons veículos de democracia, acabam por formatar a cabeça de quem os segue. Quando tanta gente se indigna a ponto de sair à rua para mandar o governo embora, acho que é um país que fala e isso deveria ser valorizado. E até acho estranho que sejam os políticos a desvalorizar as manifestações do próprio povo que os elegeu. Se dão tanto valor às vontades expressas pelo povo nas eleições, acho esquisito não darem valor às vontades e aos desejos manifestados pelo mesmo povo nas manifs, que no fundo, apenas quer líderes que representem os seus interesses e direitos. Parece tão complicado, mas acho que é só isto.
E o que é facto é que, no sábado, havia por lá muitos e bons desejos. Dos muitos cartazes que lá vi, houve um que me chamou a atenção. Era muito pequeno mas vi ali um pedido que era uma verdadeira alternativa democrática. Uma alternativa que, pelo seu conteúdo programático, poderia mesmo ajudar o país a sair desta crise.
"Coelho, vai à merda. Seguro, vai com ele."

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Sintra no meu caderno


No ano passado, a Papa-Léguas, uma agência de viagens daquelas tipo mesmo altamente, convidou-me para fazer um workshop de diários gráficos. Eram uma empresa bem vista no mercado e não tinham motivo nenhum para arriscar o prestígio conseguido ao longo de anos ao meterem-se comigo, mas, vá-se lá saber porquê, acharam que era boa ideia.
Infelizmente, o workshop acabou por não se realizar porque ninguém se inscreveu por motivos que agora não interessam nada e cada um seguiu o seu caminho.
Sem que nada o fizesse prever, aqui há tempos, o telefone voltou a tocar. Para além de crentes, fiquei a saber que os tipos da Papa-Léguas também são teimosos. Tudo no bom sentido, claro. Como me prometeram uma mala cheia de papel gosto de desafios, aceitei a proposta. Desta vez não vai ser simplesmente um workshop para ensinar umas dicas de desenho - vai ser a simulação de uma viagem, com início no Rossio, de comboio, até Sintra, com o almoço na mochila, e regresso ao fim do dia com o objectivo de registar os momentos dessa mesma viagem num caderno, seja em texto, desenho, colagem, pintura com as batatas do almoço ou o que for necessário para preservar as emoções lá vividas. O objectivo é treinar os participantes a utilizar o diário gráfico para depois o fazerem nas suas viagens maiores, onde poderão explorar ao máximo as suas potencialidades. Para isso e para comer umas queijadas e uns travesseiros de Sintra. Se a Piriquita não estiver a abarrotar, obviamente.
No horizonte fica, para já, a ideia de replicar esta actividade numa viagem maior, quem sabe a Paris, Londres ou Veneza. Tudo depende do cachet da receptividade desta actividade e da forma como as coisas correrem. Se eu conseguir chegar ao fim do dia com a integridade física intacta, será um bom indicador.
Os dados estão lançados. Para já, uma certeza: já há inscrições, eh eh! os problemas do ano passado não se vão repetir.
Inscrições e mais informações aqui.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Já estou a fazer figas até à próxima Odisseia


Em fim de semana de Oscars, decidi borrifar-me para os americanos e recostar-me no sofá a tentar ver o que alguns dos melhores actores e humoristas por cá fazem.
Na verdade, o que mais queria ver da cerimónia era  a apresentação do Seth Macfarlane (o génio por trás do Family Guy, American Dad e do South Park), mas para perceber bem a coisa vou ter que esperar que alguém faça as legendas para não me escapar pitada. Podia sempre pedir à Maria para me fazer uma tradução em simultâneo daquilo que o homem dizia, mas o mais certo era ela só conseguir dizer "Que tipo nojento... Este gajo é um pervertido... Como é que tu gostas disto?" e eu ficava na mesma. O humor do homem é capaz de ser um bocadinho, mas só um bocadinho, asqueroso. No bom sentido, claro. E é preciso ter uma certa abertura de espírito para o ver.
Tenho até algum receio de o ver por achar que o risco dele se espalhar é tão grande que às tantas nem vale a pena. Acontece-me muito isso: quando gosto muito de uma banda, de um actor ou de um escritor, dá-me vontade que eles não façam mais nada para não estragarem o que de bom fizeram para trás. Por exemplo, os Metallica editaram, claramente, 9 álbuns a mais. Podiam ter acabado perfeitamente no Black Album. E, na minha opinião de fã incondicional, dos 12 álbuns dos Delfins, 1 ou 2 foram claramente a mais. Ou 12, vá.
E com a Odisseia, do Bruno Nogueira, passa-se um bocadinho isso. O homem tem imensa piada. É dos humoristas mais talentosos e inteligentes que por cá andam mas esta série parece que podia ser tudo mas... falta-lhe qualquer coisa.
Parece aqueles jogos de futebol em que a equipa chega até à grande área adversária mas ninguém chuta à baliza. É giro e entusiasma durante uns minutos e tal, mas depois começa a cansar e as gargalhadas do início de cada episódio vão amarelando à medida que ele se aproxima do fim.
Os episódios têm vindo a melhorar, mas para mim, é sempre uma angústia ver um novo episódio. Nota-se que há trabalho criativo, há imaginação, há vontade de fazer coisas novas mas caramba, se tivesse ficado pelo "Último a Sair" se calhar não se tinha perdido nada.
Como admirador do homem, sei que vou ver todos os episódios. Mas vou começar a ver cada episódio sempre a fazer figas para que a coisa melhor que no anterior. E essa não é daquelas coisas que goste de fazer quando estou a ver alguém de quem gosto tanto.
Haja fé.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Tenho um ovni na sala


Há 3 semanas, depois de um intenso cheiro a televisão frita de cebolada que invadiu toda a casa, ficámos sem televisão. Foi a primeira televisão que comprei há 7 anos, e confesso que demorei algum tempo a recuperar do choque por, nesse dia, não poder ver a Quadratura do Círculo ter perdido um objecto de que eu gostava tanto.
Depressa descobrimos o site da tvtuga na net, mas convenhamos que não é bem a mesma coisa, especialmente quando se quer mudar de canal, vá. Aquilo demora 30 segundos para começar a transmitir o canal desejado, e graças a isso, vi pela primeira vez a Maria aguentar intervalos sem fazer zapping. Impressionante. De resto, é quase igual. Quer dizer, não dá para ler as legendas, mas o que é que isso importa? E, ah, às vezes, a imagem pára durante 5 segundos mas o som continua. Nada de mais. E, já me esquecia, carregando no botão errado, instala uns viruzitos no computador. E a imagem não tem qualidade nenhuma. Tirando isso, é igual. Igual.
Por isso, como tínhamos um serviço que, no essencial, era equivalente à televisão, decidimos andar de loja em loja, com toda a calma, à procura do modelo certo para nós. E o incrível é que, depois de termos ido a quase todas as Wortens, MediasMarkts, Boxs e RadiosPopulares desta vida, achámos todas as televisões muito caras feias.
A alternativa foi ir aqueles sites onde as pessoas vendem os monos que têm em casa, bastando-lhes tocar com um dedo que desatam logo a cair moedas pelo chão. Procurei, procurei e acabei por convencer a Maria a aceitar uma televisão com um ecrã de oitenta e tal centímetros, um bocadinho antiga mas em perfeitas condições e um preço espectacular. Não era um LCD e, por isso, era um bocadinho mais gorda que o normal, mas nada que não coubesse na sala. Tinha o pequeno senão de termos que ir buscá-la a 45km de casa, mas pelo preço apresentado valia bem a pena.
Combinámos a hora com o dono da tv e lá fomos nós. Para a Maria havia ali alguma coisa de errado. Mas o que pode estar errado numa televisão que, por aquilo que se vê nas fotos, é de uma boa marca, é grande, funciona bem e é barata? Só se for o que não se vê nas fotos...
Depois de percorrermos 45km, chegámos a casa do senhor. "Ainda por cima é simpático, saiu-nos o jackpot!", pensei eu, "Será que ele tem mais alguma coisa para vender? Eh eh!"
Entramos na garagem e damos de caras com a nave espacial televisão. Está certo: a foto de frente que estava no site era fiel, já a foto tirada por cima só mostrava um terço da profundidade da televisão. Aquilo eram quilos e quilos de televisão que nunca mais acabavam. Mas a culpa não era do homem - uma foto capaz de mostrar o tamanho do rabo daquilo precisava de um site só para ela mostrada num computador com um tamanho feito à medida só para ela.
Ainda mal tinha olhado para a televisão enquanto o homem nos falava maravilhas do aparelho quando levei uma flashada nos olhos, que fiquei ali atordoado por uns instantes. A Maria estava com aquele olhar que dizia "Se a levares vais sofrer, meu menino! Diz que não ao senhor e vamos embora!" Respondi-lhe com um olhar "Vais ver que dá! E não viemos fazer 45km para voltarmos de mãos a abanar. Estou fartinho do tvtuga, caneco!"
E assim foi. Tivemos que rebater os bancos de trás para a dita caber no carro e, mal tínhamos arrancado quando ouvimos o som das moedas a cair na garagem do senhor. Menos mal - alguém estava feliz naquele momento...
Depois de uma viagem muito animada (fiquei a conhecer novas palavras, e tudo), lá trouxemos o ovni até à sala, não sem antes parar 127 vezes pelo caminho para descansar.
A televisão até funciona bem mas é enorme. Quer dizer, se não tivesse 2m de rabo, vista do sofá talvez até ficasse mais pequena. Assim, descobrimos a sensação de ver um jogo de ténis de lado, só para ler as legendas.
Agora só há uma solução: voltar a esses sites e procurar uma sala maior. Eu espero bem que haja porque se não houver, lá teremos que tirar umas fotos à televisão (com uma boa perspectiva, claro) e voltar a pô-la online.
Ainda nunca tinha percebido muito bem porque é que só o dono, o mono e as moedas entravam nos anúncios e o cliente não. Agora já percebi - dos totós não reza a história.