Há uns tempos, fui com a Maria ao Centro de Saúde Fernão de Magalhães, em Coimbra. É numa das principais avenidas da cidade, mas mais parece um centro de saúde daqueles que se vê em documentários sobre a ex-URSS.
Chegámos cedo, e a Maria tratou de pagar a taxa para poder ir à consulta, na mesma sala onde se espera pela respectiva vez. Sentámo-nos à espera da chamada para a consulta quando, 10 minutos mais tarde, entra uma pessoa na sala (e que aqui vou tratar amavelmente por
tipa) e exclama alto e bom som para todos ouvirem:
"Há pouco, paguei a inscrição para a consulta com uma nota de 20€ e não me deram os 15€ de troco. Fui lá abaixo para beber café e dei lá conta disso. Mas vão ter que me dar os 15€."
Acho sempre incrível como é que alguém consegue saber com tanta certeza onde perdeu alguma coisa. Podia ter deixado cair o dinheiro, ter pago com uma nota de 5€, em vez de 20€ conforme dizia ter a certeza, ou outra coisa qualquer, mas não. A
tipa tinha a certeza que a falha tinha sido de quem não lhe tinha dado o troco. Nisto, aproximou-se do guichet e iniciou uma animada peixeirada com a administrativa, só interrompida pela chamada no megafone pregado na esquina da sala, para ir à consulta.
A
tipa lá foi e nós ficámos em pulgas para ver o segundo espisódio. A coisa prometia. Entretanto, a
tipa regressa à sala de espera e chamam a Maria para a consulta dela. Foi pena. Gosto sempre de ver bons filmes acompanhado, e desta vez não tive a companhia da Maria. E, se calhar, ainda bem.
A
tipa aproxima-se do guichet e recomeça com a gritaria:
"Vocês não me deram o troco. Eu saí a correr para beber café antes da consulta e esqueci-me do troco."
"Mas eu não vi aqui nenhum dinheiro esquecido."
"Mas eu tenho a certeza. Conte o dinheiro da caixa que eu não vou embora."
Nesta altura eu só pensava na pena que era não ter pipocas. Nunca se pode ter tudo.
A discussão continuou até que a administrativa contou o dinheiro da caixa e respondeu à
tipa que não tinha lá dinheiro nenhum a mais. Ainda assim, e para ficar de consciência tranquila, queria dar-lhe os 15 euros à mesma.
A
tipa fica num impasse. Tinha gritado por todo o lado que a queriam enganar e agora queriam-lhe dar o dinheiro só para limpar consciências... Não podia aceitar. Vai daí, numa brilhante actuação, vira-se para a plateia, onde eu estava, e diz:
"Eu não vou aceitar esse dinheiro. Se não se enganaram no troco, é porque alguém me tirou o dinheiro." e nisto, abandona a sala. Foi um momento muito intenso. Durante 2 ou 3 segundos, toda a gente naquela sala se olhou de lado, tentando perceber quem seria o ladrão.
Até que, uma senhora dos seus 70 anos, estica o dedo na direcção do lugar ao lado do meu, onde tinha estado sentada a Maria, e diz:
"A senhora que ía atrás dela na fila estava sentada ali."
Como é que é? Entra uma
tipa que ninguém conhece de lado nenhum a dizer que uma pessoa naquela sala lhe roubou 15€ e há logo quem comece com acusações? Curiosamente, naquele instante também formei a minha opinião sobre o possível ladrão. Mas eu não me podia ficar. Estavam a querer acusar a Maria e isso eu não podia permitir. Pigarreei um pouco, coloquei a voz e disse:
"Quem estava aqui era a minha mulher mas ela não roubou ninguém."
A resposta pronta de todos foi: "Pois não. Claro que não. Não não não."
O que vale é que aquilo era tudo gente séria, estava bom de ver.
Mas quando a Maria chegou ao pé de mim, toda sorridente e a dizer que era por a consulta ter corrido bem, também fiquei de pé atrás. Será que eu vivia com a nova
Winona Ryder, a actriz com as mãozinhas mais rápidas de
Hollywood? De repente, até o facto de a Maria perceber tanto de cinema americano já parecia suspeito. Isso e estar sempre a deixar cair coisas. De certeza que era para disfarçar. Mas bem, vendo o lado positivo, sendo eu casado com ela, também teria direito a metade do roubo. E será que havia mais desfalques? E contas nas Ilhas Caimão?
Estava eu nesta torrente de pensamentos quando chegámos ao nosso
Peugeot 206 e...
Esperem lá. Eu estava a falar de quê?