Desde que me lembro, sempre me perguntei o que raio fazem uns tipos de aspecto duvidoso, a que, normalmente, chamamos maestros, a esbracejar em frente a um coro ou a uma orquestra, durante os concertos. Tanto os membros dos coros como os músicos de uma orquestra, sabem, com toda a certeza, as músicas de cor quando vão dar um concerto. E, mesmo que não soubessem, tinham lá as pastas e as pautas para não se perderem. Então para que raio é preciso um tipo à frente deles a mexer-se como se se estivesse a torcer de dores?
Este Domingo descobri a resposta a mais este enigma da Humanidade. E não foi bonito.
Ora, sucede que, lá na terreola aconteceram mais umas Promessas dos Escuteiros do Agrupamento 859.
À hora marcada, a igreja encheu-se de pais e amigos dos miúdos que iriam viver um momento importante das sua vidas. E, como não podia deixar de ser, coube à malta a parte da animação dos cânticos da missa. Era importante fazer boa figura.
Geralmente, quando se ensaiam as músicas com 4 semanas de antecedência, as coisas até correm bem. Desta vez, só houve a possibilidade de ensaiar com uma semanita de antecedência e, antes disso, há um ano que ninguém se juntava para cantar. O caminho estava traçado mas era em direcção ao abismo.
Quando nos instalámos na igreja, antes da cerimónia, o sentimento era de desespero. A tal ponto que, um dos meus colegas que toca viola e ensaia o pessoal me pediu para puxar pela malta em cada música. Ele a ensaiar a malta é do melhor que há, a sério. Mas tem um problema grave: só tem 2 braços. E ali estava ele a pedir-me para eu ser os outros 2 braços dele, puxando pelas vozes de quem tem que lhes dar uso durante as músicas. Eu, que nunca tinha percebido a verdadeira necessidade de um maestro, estava prestes a tornar-me num. Ou não.
Quando chegou a primeira música, pus-me de pé virado para o coro e comecei a esbracejar timidamente. E... nada, não aconteceu nada. Quem estava a cantar continuou, quem estava calado assim ficou. Havia algo de errado no meu esbracejar. Aquilo, afinal, tem técnica.
Mas, o momento era importante e eu não podia baixar os braços, literalmente. Na segunda música esbracejei com mais força e já notei um pouco mais de entusiasmo no coro. À 4a ou 5a música, eu já estava de um jeito que só me lembro de agredir quem estava ao meu lado, tal era o vigor do esbracejamento. E a malta cantava com entusiasmo e, aparentava que ia seguindo as minhas indicações.
Estava eu naquele transe quando tive uma revelação, uma epifania. Sim, finalmente eu tinha descoberto qual a necessidade de ter um maestro à frente de um coro ou de uma orquestra. Depois de todo aquele esforço, recompensado pelo entusiasmo de quem cantava, eu percebi tudo.
É preciso um tipo a esbracejar bastante, mas tem que ser bastante, para que, na cabeça de cada cantor ou músico surja o seguinte pensamento:
"É pá, coitado do gajo. Tá tudo a olhar para a figura triste que ele tá a fazer. Bem, deixa lá cantar mais alto para as pessoas pensarem que é por causa de ele estar ali e não gozarem com ele depois... E mesmo que cante mal ninguém vai reparar. Tá tudo a olhar para ele, coitado."
Sim, ser maestro não tem nada a ver com música. Lamento mas é a verdade.
Agora vou deixar crescer o cabelo sem o pentear, como os maestros das melhores orquestras fazem. Aquilo chama tanto a atenção do público que depois já não é preciso esbracejar tanto para lhes chamar a atenção e fazer os músicos tocar mais alto.