quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A salvar casamentos desde 1982


Aqui há uns dias, estava eu entretido na estação de metro da Baixa-Chiado, quando chega um casal de simpáticos espanhóis ao pé de mim para me pedir indicações.
A senhora, toda afoita, fazendo sinal ao marido para ele a deixar falar, olha para mim sorridente, e pergunta-me do alto do seu portunhol:
"Pór fabór, qual és a mélhór estaçau para a Sé de Lischeboa?"
Ora bem. Se fossem portugueses a perguntar, eu diria simplesmente: "Olha, não sei. Tens ali um mapa do metro na parede onde podes tirar essa dúvida." Como eram estrangeiros, espanhóis, no caso, e a esforçarem-se por falar português, resolvi ficar uns segundos em silêncio, como se estivesse a pensar. Quando achei que já tinha passado o tempo suficiente para eles me acharem um verdadeiro expert da cidade de Lisboa, respondi:
"É esta. Saem e vão a pé."
Na altura quis acreditar nisso mas a forma como a mulher olhou para o marido deu-me logo a entender que tinha dado a resposta errada. A senhora olhou instintivamente para o marido que lhe fez um olhar, do género eu-avisei-te-que-tipos-a-fazer-desenhinhos-são-uns-cromos-do-caraças-mas-tu-foste-teimosa... Ela devolveu-lhe um olhar eu-nunca-disse-que-ele-não-era-cromo-mas-vais-ver-que-ele-sabe e, virou-se para mim, com um olhar ajuda-me-por-favor-se-não-vou-perder-a-razão-e-eu-detesto-perder-a-razão, e perguntou mais uma vez:
"Más nós parécé que debe de haber una más cerca!"
Ciente da responsabilidade da minha resposta na vida conjugal daquele casal, respirei fundo. Não queria repetir a burrice da primeira resposta em que só tinha estado 5 segundos em silêncio, quando, claramente, um especialista na matéria aguarda pelo menos 7 antes de responder. Após esse tempo, empinei o nariz e perguntei-lhe:
"Tem algum mapa da cidade?"
A mulher, revigorada com a pergunta, sacou do mapa de imediato e pô-lo à minha frente. O mapa era muito completo e até tinha as linhas desenhadas. Era só procurar a Sé e a estação que estivesse desenhada o mais perto possível. Ainda pensei responder "Chiça, então nem mapas sabem ver? E depois o cromo sou eu. Sim, sim, que eu bem vos ouvi a pensar..." mas, nesta altura havia já um casamento em causa e, com os sentimentos dos outros eu não brinco.
Mais 7 segundos volvidos e respondi:
"É a do Terreiro do Paço."

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nem só de cadernos vive o homem


Já vem sendo hábito. Durante alguns dias de cada mês, acabo por ficar em casa, em total reclusão. Durante esses dias, em que agora estou, não me apetece sair nem falar com ninguém, o humor quase que desaparece, a barba atinge novos recordes, o cabelo ganha vida e sinto dores pelo corpo, especialmente ao nível do rabo.
São aqueles dias. Já me disseram que é normal ser assim, mas custa sempre. E, apesar de custar a passar, eu espero sempre que no próximo mês os volte a ter.
Sim, são os dias em que tenho que acabar um trabalho qualquer de enfiada, porque o prazo de entrega se está a chatear porque tem mais que fazer e quer ir à vida dele.
Quem não percebe é o meu caderno, que tem passado os dias amuado na mesa da sala. Às vezes atira-se para o chão para chamar a atenção, mas já começa a irritar. Acham que uma pessoa tem que estar dísponível todos os dias e não é bem assim. Uma pessoa anda cansada, preocupada com outras coisas e isso tira a vontade. Uma pessoa não é uma máquina.
Esperem lá que já me perdi. Estava a falar de quê?

PS: com um bocadiiiinho de jeito, qualquer dia encontram um livro infantil à venda com esta página lá pelo meio...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Isto está a ficar perigoso

Este fim-de-semana fui à ANJE (Associação Nacional dos Jovens Empresários) em Algés, ao lançamento do lado social do projecto Believe, do qual já falei aqui no estaminé. A ideia era só ir lá expor os desenhos que tinha feito no primeiro lançamento (por ocasião do qual tive honras de aparecer na TVI), mas como não tinha nada para fazer antes de começar a apresentação, pus-me a desenhar. Quer dizer, podia ter ido tentar socializar com desconhecidos, mas nisso sempre fui um desastre.
Sentei-me num sofazinho do hall de entrada e saquei do papel e do porta-minas. Estive ali a desenhar mais ou menos 5 minutos e, durante esse tempo, o cavalheiro do sofá à minha frente mal se mexeu. Quando as pessoas mal se mexem, isso pode acontecer por dois motivos: o primeiro é porque, na verdade, são estátuas e, o segundo, porque sabem que estão a ser desenhadas.
Neste caso, o motivo foi o segundo. Mal acabei o desenho, o senhor virou-se para mim e exclamou, num tom de voz colocado:
"O sôr..., o sôr é como aqueles dos tribunais!"
Ia eu para responder que sim, quando comecei a pensar. Os tipos que desenham nos tribunais, estão ali para desenhar os, alegados, criminosos. Ora, eu estava a desenhar um homem que me comparou, ele próprio, aos tipos que desenham criminosos, sabendo que eu o estava a desenhar a ele...
Antes que os pensamentos me invadissem ainda mais e atingissem níveis de estupidez nunca antes registados, reuni a mim todas as minhas forças, e, cheio de coragem, olhei o homem nos olhos. Sorri-lhe e acenei-lhe que sim com a cabeça, arrumei as minhas coisinhas e, antes que fosse tarde de mais, fui... tentar socializar com desconhecidos.
Afinal, o importante mesmo é socializarmos, não é? Ai eu acho.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

30


Andei, durante algum tempo, a convencer-me que fazer 30 anos não ia ser nada de especial. Afinal de contas, é só mais um ano e o facto de ser uma mudança de década não tem nenhum peso especial, certo?
Errado. À chegada ao famigerado dia, a minha cabeça estava mentalizada mas o meu corpo não. Acusou a pressão e espetou-me uma gripalhada como há muito não me recordava. Mas bem, com 30 anos, uma pessoa já tem uma certa maturidade e, com os anos, vai aprendendo a lidar com estas situações.
Iniciei o tratamento com um comprimido de manhã e fiquei em casa a aquecer. Como a coisa não estava a melhorar, decidi aumentar o grau do tratamento. Fui com um amigo a um café e passámos a tarde a beber cervejolas. A ideia era abafar a constipação mas, mesmo com dose reforçada, a sacana continuava a resistir.
À noite, já em esforço, fui ao cinema com a Maria. O prognóstico clínico era já, nesta altura, bastante reservado e exigiu medidas extraordinárias. Sem mais alternativas, foi necessário recorrer, em plena exibição do filme, à ingestão de um poderoso e eficaz... pacote de gomas.
E aí está a prova de que o passar da idade só tem vantagens porque o envelhecimento trás consigo sabedoria. Quando cheguei ao final do pacote, qual constipação qual quê.
Já viram alguém a acabar de levar um murro no estômago a queixar-se por estar ranhoso?
Eu também não.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Nunca ignorem um arrepanhar de pescoço


Quando fui com a minha senhora comprar bilhetes para a peça "Quem tem medo de Virginia Wolf" no Teatro D. Maria, a secretária disse-nos que só havia bilhetes para o 2º balcão e, ao dizê-lo, arrepanhou o pescoço. O gesto dela gritava "Venham noutra altura. Estes lugares são horríveis!". Com um sorriso de parvo, que tentava dizer "Já assistimos a imensas peças nesses lugares e são óptimos. Sim, porque nós vamos imensas vezes ao teatro, ou achas que é só hoje porque fazemos anos de namoro?", disse-lhe que queria dois bilhetes.
A senhora imprimiu-os, fez-nos o troco e revirou ligeiramente o olhar, num gesto que percebi perfeitamente que dizia "Estes dois nunca cá vieram, de certeza, mas é bem feito especialmente para o gajo, porque me está a tentar convencer que já cá vieram muitas vezes..."
No dia seguinte, lá fomos nós à peça. Quando chegámos ao balcão do 2º piso, depois de nos instalarmos, recordei por breves instantes aquele arrebanhar do pescoço da senhora que nos tinha vendido os bilhetes.
E sim, foi só por breves instantes. Porque com os 27º de temperatura que lá estavam, com os joelhos a bater na varanda, e a ter que pôr o casaco debaixo do rabo para conseguir ver o palco, tive mais com que me preocupar.
O que vale é que a peça só durou 3 horas...
É verdade, havia uma peça, sim. A história era sobre dois casais a discutir, o que acabou por ser monótono. É que para além das discussões no palco, ainda levámos com as discussões dos outros casais do 2º balcão:
"Vai pedir à senhora para baixar a temperatura!"
"Já fui. Ela diz que não pode poque senão as pessoas da plateia ficam com frio..."
"Mas estamos no Inverno, toda a gente tem roupa quente!"
"Tu também podes tirar roupa..."

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sou irritante, mas é para o bem dos outros


Tenho o mau hábito de deixar tudo para a última da hora. Quando tenho alguma coisa para fazer, a primeira coisa que penso é no prazo que tenho, para depois fazer contas para trás e ver quanto tempo tenho para me baldar, antes de entrar em pânico com medo de não conseguir fazer tudo a tempo.
Com o ano de 2011, não foi diferente. Foi o ano do voluntariado, e acabei por deixar a minha contribuição para esta bonita efeméride para o último dia do ano.
Mas foi em grande. Com o pessoal lá da terra, tirámos o dia para plantar morangueiros para um lar de idosos. Havia tarefas bem definidas: abrir os buracos no camalhão (é o que se chama ao chouriço de terra, coberto por um plástico preto, onde se vão plantar os morangueiros), pôr o estrume, abrir uma pequena cova, colocar a planta e tapar o buraco.
Eu fiquei na parte de abrir os buracos no plástico.
Como ía à frente, mal acabei a minha parte, fui lavar as mãos e sentei-me num caixote a desenhar os outros, ainda, a trabalhar.
Agora que penso nisso, é capaz de ter sido um bocadito irritante. Afinal de contas, já eram quase 5 da tarde do dia de passagem de ano, estava tudo cansado e sujo de lama, tudo deserto por se despachar para ir tomar banho e arranjar para a festa, ainda havia para aí 200 morangueiros para plantar, e há um tipo que vai lavar as mãozinhas e sentar-se a fazer uns desenhinhos dos outros a trabalhar...
Geralmente, e digo isto por experiência própria, as pessoas aguentam 2 desenhos até lhes saltar a tampa. Neste caso, talvez imbuidas pelo espírito da boa vontade, a tampa só saltou mesmo no final do 3º desenho.
Não haja dúvidas: o voluntariado torna mesmo as pessoas mais bonitas. E pacientes.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

E pronto, foi isto


O caderno de 2011 está fechado. E não fosse o elástico que tem à volta, provavelmente não o conseguiria fechar. 2011 foi um ano cheio, disso não há dúvidas. Foi um ano que trouxe muitas mudanças, umas boas e outras nem por isso. Em que se fecharam umas quantas portas mas em que se abriram muito mais janelas.
E, aqui em particular, foi o ano em que criei o estaminé. Muitas histórias por aqui passaram mas muitas mais irão passar. Estou-me a lembrar agora de uma muito boa, quando fui a..., não não, melhor é aquela em que uma vez fui ter com a minha senhora e..., ou aquela quando me esqueci onde fui e inventei a maior parte...

2012 promete. Encontramo-nos por lá.
Boa passagem de ano a todos e, falando daquilo que realmente importa nesta altura, que ganhe a Daniela. É que tenho uma certa predilecção por pessoas com cérebro.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Estava a brincar, não era nada de especial...


Mulher Presumivelmente Canadiana (MPC) - May I borrow your pencil, please?
Gajo a Meio de um Desenho (EU) - Ahhhh...
Marido da Mulher Presumivelmente Canadiana Também Ele Canadiano (MMPCTEC) - I promise it won't take long...
EU - Ok.

5 minutos mais tarde:
EU -Viste? O raça da rapariga não viu que eu estava a fazer um desenho e que para lhe emprestar o lápis tinha que parar a meio?
Esposa do Gajo a Meio de um Desenho (MARIA) - Canadiana. Pelo sotaque, é canadiana de certeza.
EU - Quer dizer, a miuda tira-me a concentração toda e tu estás preocupada com o sotaque?
MARIA - Ou seria australiana? Não não, era canadiana.
EU - Podia estar agora aqui uma obra prima e por causa dela, está o que se vê.
MARIA - Que estupidez, australiana... Por amor de Deus, os australianos não têm um sotaque assim.
EU - Era toda jeitosa.
MARIA - O quê??

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Natal também é quando um carro quiser


Como a família é grande e as carteiras estão cada vez mais pequenas, em casa dos meus pais fazemos um sorteio secreto para sabermos a quem devemos dar a nossa prenda de Natal. É aquilo a que chamamos o Pai Natal Secreto. A partir do momento em que o sorteio é feito, passamos a dar mais atenção às conversas que vamos tendo com a pessoa que nos calhou, para percebermos o que devemos oferecer. Tem a vantagem de ficar mais em conta mas também tem o risco de não se agradar com a prenda que se dá. É que, só com uma hipótese, a probabilidade de falhar é grande.
No meu caso, não tive grandes problemas. A minha irmã mais nova encarregou-se de dizer a toda a gente que estava mesmo a precisar de um pijama, várias vezes ao dia. Não é que eu precisasse da dica. Tenho a certeza de que ela também ficaria igualmente contente com umas meias da feira que tinha pensado em dar-lhe. Os meus sobrinhos, de 4 e 7 anitos, é que são a excepção. Mas eles merecem, porque são eles que trazem a magia ao Natal, tarefa dificil nos dias que correm.
O meu carro é que não apreciou muito a brincadeira. Então ele leva-nos para todo o lado, farta-se de nos proporcionar bons momentos, e nem sequer é incluido no sorteio?
Chateado com a falta de consideração, resolve amuar e impedir-nos de fazer marcha atrás.  Para a frente tudo bem, mas para trás não era com ele. A coisa foi de tal jeito que, nem pondo água e óleo no carro a coisa lhe passou. E olhem que a água e óleo resolvem muita coisa.
Não tivemos outra hipótese senão, ainda antes do Natal, oferecer-lhe um kit de travões para as rodas traseiras. E teve logo que ser para as duas rodas, porque senão o menino fazia birra e estávamos sujeitos a fazer piões no meio da estrada.
Nas vésperas do Natal, a caminho de casa dos meus pais, resolveu mostrar que foi nosso amigo em só pedir os travões para as rodas de trás. Em plena auto-estrada, pôs-se a acelerar sozinho, numa clara demonstração de que quem manda é ele. De Leiria até Miranda, viemos a pouco mais de 60 km/h, mas com um som de fazer inveja a qualquer Saxo Cup ou mesmo 106 Rallye, com tunning até à medula.
Felizmente, no dia de Natal, a coisa passou-lhe. Afinal, o Natal, também, é quando um carro quiser. E deixar.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal!


Como tenho apenas 3 minutos e 23 segundos até toda a rua ficar a saber o meu nome, vou apenas deixar aqui os meus votos de Boas Festas e Feliz Natal a todos!
Pronto, agora tenho que ir para a cozinha, que é capaz de lá haver alguém a precisar dos meus dotes culinários. A minha especialidade na cozinha é abrir frascos. Nisso sou o maior. Frascos e latas, também. E toda a gente sabe que para um pudim de leite condensado ficar bom, é preciso alguém abrir a lata primeiro.
Bem, Feliz Natal mais uma vez e vou andando, que não me posso mesmo esticar. É que só hoje de manhã é que consegui acabar as compras, porque passei ontem o dia a fazer um postal de Natal especial, com as letras e os desenhos bem Arrumadinhos, (as voltas que dei para conseguir espetar isto neste post...) e, com tudo isto, a família é que ficou para trás.
Agora é que é: Boas festas a todos, junto de quem mais amam!

Já vou!! :D